Mladic começa a ser julgado por genocídio

Ex-general servo-bósnio comandou o massacre de Srebrenica e o sítio à cidade de Sarajevo

HAIA, O Estado de S.Paulo

17 Maio 2012 | 07h50

Ratko Mladic, ex-comandante militar servo-bósnio, foi levado ontem a julgamento por uma lista de acusações de crimes de guerra, genocídio e crimes contra a humanidade decorrentes de alguns dos eventos mais sangrentos da Guerra da Bósnia, incluindo o massacre de Srebrenica e o cerco a Sarajevo.

Na lotada galeria pública, um grupo de sobreviventes da Bósnia murmurou insultos quando Mladic - conhecido como "o açougueiro dos Bálcãs" - apareceu, e uma mulher o chamou de "abutre" quando o ex-comandante, voltando-se para a multidão, fez um sinal de positivo ao reconhecer alguém. Outra mulher ergueu as mãos, cruzadas uma sobre a outra como se estivessem algemadas, para lembrar a Mladic que ele era agora um prisioneiro. Desafiante, ele respondeu passando o dedo de um lado ao outro da garganta, gesto que levou o juiz a repreendê-lo, exigindo que o réu parasse com as "interações inapropriadas".

A promotoria relacionou as atrocidades cometidas por soldados sob o comando direto de Mladic quando as unidades servo-bósnias desencadearam uma campanha de limpeza étnica e, em Sarajevo, dirigiram contra a população civil uma "válvula do terror" que poderia ser aberta e fechada à vontade.

Vinte anos depois do início da guerra, que começou com a fragmentação da antiga Iugoslávia, o indiciamento por 11 acusações trouxe à lembrança o maior derramamento de sangue em solo europeu desde a 2.ª Guerra, quando Sarajevo foi submetida a 44 meses de um cerco que envolveu peças de artilharia e atiradores de elite e deixou um saldo de mais de 10 mil mortos.

Durante uma pausa, Kada Hotic, que chegara de Srebrenica, estava soluçando. "Ele ordenou o assassinato do meu marido, filho, dois irmãos e cunhado", disse ela. "Agora que posso olhar nos olhos dele, quero vingança." O indiciamento dizia que Mladic se juntou voluntariamente aos políticos sérvios no planejamento da brutal política de limpeza étnica, uma campanha na qual soldados e milícias varreram cidades e vilarejos na Bósnia, expulsando dezenas de milhares de famílias muçulmanas e croatas para abrir mais espaço para os sérvios.

No auge da campanha na Bósnia, forças sob o comando de Mladic - capturado em maio de 2011 - chegaram a controlar quase três quartos do território bósnio. "Quando Mladic e seus soldados assassinaram milhares em Srebrenica, eles já estavam bem treinados na arte de matar", disse o promotor, Dermot Groome.

Corpos de vítimas do massacre de Srebrenica ainda são encontrados em valas comuns. Ewa Tabeau, demógrafa convocada a depôr no tribunal que julga os crimes cometidos na antiga Iugoslávia, disse no início do mês que o número de mortos era 8.005, dos quais 6.241 foram identificados por meio da análise de DNA.

"A promotoria vai apresentar provas que comprovarão para além de qualquer dúvida o envolvimento de Mladic em cada um desses crimes", disse Groome ontem.

Exibindo uma série de mapas e tabelas no tribunal, Groome dedicou-se a mostrar que os servo-bósnios tinham promovido a limpeza étnica para redesenhar os contornos geográficos e demográficos das áreas sob seu controle para garantir "a separação do povo sérvio das outras duas comunidades nacionais", os muçulmanos e os croatas da Bósnia.

"A limpeza étnica foi o propósito das ações militares, e não uma consequência da guerra", disse ele, citando os objetivos estratégicos adotados pelas autoridades servo-bósnias.

Na campanha, Groome contabilizou uma série de assassinatos, execuções, retaliações, bombardeios e fuzilamentos de muçulmanos, que ele qualificou de "crimes cometidos diretamente" por soldados sob o comando de Mladic. / NYT

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