Mobilização contra o terror

Há diferenças fundamentais entre os ataques ocorridos nos últimos meses em várias partes do mundo, sob o enganoso rótulo de “Estado Islâmico”. A 19 dias da abertura dos Jogos Olímpicos, é importante que os brasileiros entendam essas diferenças e se concentrem na verdadeira e concreta ameaça que o País tem diante de si.

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2016 | 07h26

Os atentados de Paris em novembro e de Bruxelas em março estão estreitamente interligados. Seus participantes agiram em obediência direta ao EI, alguns foram treinados na Síria, e contaram com apoio de uma rede de células em vários países europeus. Eles pertencem à comunidade árabe imigrante na França e na Bélgica, que vivem em guetos nas grandes cidades. Alguns desses jovens transitaram do crime comum para o extremismo islâmico, como nova forma de expressão de sua agressividade. Frequentaram mesquitas onde encontraram acolhimento e sentido para suas vidas. Pela internet, e depois fisicamente, na Síria, cruzaram a ponte da narrativa religiosa para a fantasia do pertencimento no Califado Islâmico e da salvação pelo martírio. 

No dia 13 de junho, o cidadão francês Larossi Abbala, de 25 anos, matou a facadas um casal de policiais na cidade de Magnanville, enquanto filmava a ação ao vivo pelo Facebook e o filho de três anos das vítimas assistia. Abbala havia sido detido duas vezes. Em 2011, quando tinha 19 anos, policiais encontraram em seu celular imagens de uma matança de coelhos em uma floresta. Era uma demonstração do que eles chamariam de sua “sede por sangue”. Dois anos depois, ele foi detido novamente, por causa de e-mails trocados com integrantes da Al-Qaeda. Abbala ficou furioso por não ter sido escolhido pela célula terrorista para ir treinar no Paquistão, e orientou sua ira contra a França. Depois da detenção, ficou sob vigilância. Poucos meses após o fim do monitoramento, cometeu o atentado. Abbala tinha ligações com integrantes da Al-Qaeda tanto na França quanto na Bélgica.

Agora, passemos para os casos de atentados por extremistas islâmicos em países muçulmanos. No dia 29, três homens armados de fuzis automáticos e com explosivos atados aos seus troncos chegaram de táxi ao aeroporto de Istambul. Tentaram avançar o máximo que puderam até serem interceptados pelos seguranças. Então abriram fogo com seus fuzis. Quando passaram a ser alvejados, detonaram os explosivos. Esse atentado seguiu o mesmo roteiro daquele cometido no aeroporto de Bruxelas, reivindicado pelo EI. Segundo as autoridades turcas, os participantes eram um checheno da república russa do Daguestão, um usbeque e um quirguiz – ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central. O atentado selou a reaproximação entre Erdogan e o presidente russo, Vladimir Putin. Uma história misteriosa e complexa.

Em Daca, Bangladesh, jovens radicalizados localmente invadiram um bar frequentado por estrangeiros no dia 1.º. Os bengalis muçulmanos foram poupados. Nove italianos, sete japoneses, três bengalis e um indiano foram mortos. Três dos terroristas eram provenientes da elite do país, um deles filho de um dirigente do partido do governo. Mais de 100 jovens desapareceram da mesma forma que eles, e suspeita-se que tenham sido alistados pelo EI. O grupo disputa influência sobre a região com a Al-Qaeda no Subcontinente Indiano (Aqis).

Na noite de sábado para domingo, 2 para 3, no ataque mais sangrento em Bagdá desde 2009, explosivos foram detonados em uma loja alugada no bairro de classe média alta de Karrada, que abriga xiitas e cristãos. O EI não reivindicou esse atentado, e iraquianos me disseram duvidar que um grupo sunita possa tê-lo executado: xiitas e cristãos não alugariam uma loja para um sunita. O EI e a Al-Qaeda podem atacar áreas xiitas com carros-bomba. Não dessa forma. A suspeita é de que milícias xiitas tenham desejado estragar a festa da retomada de Falluja do EI, com apoio da população sunita ao Exército iraquiano, e dificultar a reconciliação no país.

Por último, o filho de afegãos Omar Mateen, no ataque de 12 de junho à boate gay de Orlando, e o tunisiano Mohamed Lahouaiej Bouhlel, em Nice, pertencem a uma outra categoria. Não eram religiosos. Sofriam desajustes psicológicos e sociais, e desejaram viver um momento de glória antes de encerrar suas existências. O EI e a Al-Qaeda ficaram tão surpresos com suas ações quanto todos nós. É fundamentalmente com esse tipo de “lobo solitário” que o Brasil precisa se preocupar. Claro que é importante estar atento à eventual presença de militantes islâmicos. Mas isso é estatisticamente muito menos representativo no Brasil, e bem mais fácil de detectar, do que uma bomba-relógio humana pronta para uma explosão em busca da máxima repercussão possível. É preciso mobilizar a população para que redobre a atenção e agilizar a chegada das denúncias ao Centro Integrado Antiterrorismo. O canal é o mais simples e conhecido de todos: o 190.

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