Mobilização de latinos permitiu reeleição

Republicanos estudam amenizar discurso para atrair eleitorado de origem hispânica

GUSTAVO CHACRA, CORRESPONDENTE / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2012 | 02h04

Se quatro anos atrás a vitória de Barack Obama foi atribuída aos jovens e negros, desta vez os hispânicos foram os fiéis da balança. Apesar de decepcionados com o número de imigrantes ilegais deportados e com o pouco avanço na reforma de imigração, os latinos votaram em peso no democrata.

Obama recebeu 71% dos votos de eleitores que se descrevem como hispânicos contra apenas 27% do rival Mitt Romney. A vantagem ficou mais acentuada com o surpreendente comparecimento de latinos às urnas. Ao todo, 10% dos eleitores que votaram na terça-feira se identificaram como hispânicos - um recorde.

Em Estados como Novo México, Colorado e Nevada a proporção desses eleitores é vista por quase todos os analistas, e mesmo por estrategistas republicanos, como fundamental para a vitória de Obama. A expectativa é a de que a proporção de hispânicos aumente ainda mais nos próximos anos e a influência deles seja cada vez maior no resultado das eleições.

Em um debate de analistas realizado na Fox News, os republicanos listaram ontem erros na campanha. Segundo eles, Romney ficou associado à expressão "autodeportação", usada por ele em um debate nas primárias republicanas. Ele nunca deu detalhes sobre como seria essa política, que repercutiu mal entre a população de origem hispânica. A lei anti-imigração do Arizona também assustou os eleitores latinos, que temiam uma radicalização caso um republicano fosse eleito.

Embora os canais de língua espanhola tenham insistido ao longo dos meses que Obama bateu o recorde nacional de deportações, ao expulsar dos EUA mais de 1 milhão de imigrantes sem documentos, e não tenha implementado uma reforma imigratória quando controlava o Congresso, os hispânicos também levaram em conta pontos positivos do atual governo, como a permissão para permanecer no país concedida a jovens de menos de 30 anos trazidos para os EUA pelos pais ainda crianças.

O avanço dos democratas entre os eleitores hispânicos já havia sido registrado em 2000, quando 62% dos latinos votaram em Al Gore para presidente. Na eleição seguinte, George W. Bush melhorou o desempenho dos republicanos nessa parcela do eleitorado e obteve 44% do voto hispânico.

Apesar de terem se saído mal nas eleições presidenciais, os republicanos possuem alguns políticos de peso e bons resultados no âmbito estadual, especialmente com políticos latinos. A governadora do Novo México, Susana Martinez, é republicana. O Texas elegeu um senador de origem latina, Ted Cruz. O mais popular político hispânico dos EUA, Marco Rubio, senador pela Flórida, também é republicano. O irmão do ex-presidente Bush, Jeb, que governou a Flórida, tem uma mulher mexicana, fala espanhol e seu um filho, George Bush III, se identifica como hispânico em razão de sua família materna.

De acordo com o censo americano, a população hispânica foi a que mais cresceu nos EUA. De 35 milhões em 2000, e hoje representa 16% do total de americanos. De acordo com o Pew Research Center, a população de latinos do país deve triplicar nos próximos 40 anos e devem atingir quase 30% da população.

Após a derrota de terça-feira, o colunista conservador Charles Krauthammer disse na Fox News que o Partido Republicano tem de abrir mão de algumas convicções e aceitar "formas de anistia" para os ilegais. "Isto pode mudar tudo. Se um político como Rubio adotar essa bandeira, romperíamos todas as formas de alinhamento étnico", disse.

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