Perreo404/Acervo Pessoal
Perreo404/Acervo Pessoal

A onda que deu a Biden a Geórgia e o Capitólio

Negros, latinos e asiáticos lutaram por triunfo democrata em reduto republicano

Leandra Felipe, especial para o Estadão, de Atlanta

11 de janeiro de 2021 | 05h00

ATLANTA - Um carro de som com um DJ tocando sucessos de hip hop e reggaeton (ritmo latino). Um quiosque oferecendo ponche (uma bebida quente à base de frutas e canela) e tamales mexicanos (uma espécie de pamonha) grátis aos eleitores que foram aos locais de votação na última terça-feira, 5, na Geórgia. As iniciativas do grupo Perreo 404, uma organização jovem latina do Estado, foram algumas das centenas que ajudaram no histórico resultado das eleições de segundo turno para o senado.

Várias táticas foram usadas para motivar o eleitorado latino a comparecer às urnas no segundo turno das eleições do Estado, que acabaram garantindo a vitória dos dois representantes democratas do Estado para o Senado: Rev. Raphael Warnock e Jon Ossoff derrotaram os republicanos Kelly Loeffler e David Perdue, respectivamente.

O resultado é histórico para o Estado, primeiro por elevar a Geórgia ao papel de grande decisor dos próximos dois anos do governo do presidente, e ainda por ter firmado a liderança azul (democrata) em um dos Estados mais conservadores do país, com histórico alinhamento aos republicanos. Estrategistas locais e organizadores comunitários em todo o Estado são, na visão de analistas, os responsáveis pelo comparecimento e vitória dos democratas.

"A estratégia da gente é falar direto com os jovens latinos e gerar essa vontade de votar", comenta Juan Perez (nome fictício) um dos líderes do grupo Perreo 404, uma organização formada por jovens de origem latina que mantém o anonimato e atuam há três anos, realizando eventos, festas e encontros com música, arte e política.

Aos 31 anos, Juan é cidadão dos Estados Unidos, de origem mexicana, e disse que não se interessava por política há alguns anos. Foi depois das eleições de 2016, quando Donald Trump se elegeu, que ele começou a despertar.

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"A vitória de Trump me impactou muito, porque tudo o que ele dizia, feria diretamente a minha comunidade", explica. Foi aí que ele começou a prestar atenção à política, sobretudo no partido democrata.

"Acabei vendo que existiam algumas iniciativas das bases do partido voltadas aos latinos, mas as iniciativas não eram feitas por gente latina". Junto a alguns amigos jovens, eles criaram o Perreo 404, conseguiram uma sede para a organização e apostaram em eventos e artes.

Segundo Juan, eles trabalharam bastante nas eleições de 2018. "Íamos às festas e clubes noturnos e abordávamos o público incentivando, e orientando as pessoas a irem votar e participarem das eleições".

Na mesma linha, está Jorge Bello, 35 anos, do Latinx Caucus-Dem Party, que trabalhou durante as eleições, um grupo mantido em parte com verbas do partido democrata.

A primeira vez que ele votou foi em 2016. "Eu nunca quis votar, até que comecei a ver o discurso de Bernie Sanders", diz, ao explicar como o senador de Vermont influenciou sua virada de pensamento com relação à participar das eleições.

"A partir daí e também com a chegada de Trump ao poder, entendi que era preciso se tornar um ator de mobilização", conta. E complementa: "Ao invés de ficar dizendo que política não interessa, descobri que votar é a maneira de se fazer ouvir".

O Perreo 404 e Latinx são dois exemplos de pequenas comunidades que usaram as mídias sociais para falar diretamente ao público jovem. A vitória democrata nas eleições do segundo turno para o Senado, na Geórgia, foi resultado de um amplo trabalho que uniu as comunidades latina, negra e uma parcela de imigrantes asiáticos na região. 

Comunidade Negra

Nas eleições majoritárias de novembro, mais de 1 milhão de afro-americanos votaram na Geórgia. E desde o resultado das eleições presidenciais, as bases democratas trabalharam para levar novamente estes eleitores às urnas nas eleições de segundo turno para o Senado.

Historicamente, o comparecimento nas eleições de segunda volta é baixo, sobretudo entre as comunidades negras. Outro grupo de destaque foi o Black Voters Matter.

A co-fundadora da organização LaTosha Brown considera que o ano difícil - duro para o país, e particularmente para os negros, como mortes violentas pela polícia, a pandemia do coronavírus e o comportamento do presidente Donald Trump em relação aos negros acabou por aumentar na comunidade o desejo de mudança.

"Os eleitores negros saírem em número recorde apesar de todas essas coisas em uma manifestação de vanguarda da democracia, abrindo uma nova paisagem política não só para Geórgia, mas para o país todo", afirmou a ativista em uma entrevista essa semana à rádio pública norte-americana NPR.

Duas organizações foram idealizadas por Stacey Abrams, o Nova Geórgia e o Far Fight nessa trajetória, ambas focadas na promoção do direito ao voto. 

As iniciativas trabalham juntamente com líderes locais em diferentes regiões de Atlanta, sobretudo entre eleitores negros, latinos e asiáticos, e também entre mulheres destes grupos. Além de eventos, também foram criados e utilizados aplicativos para smartphones que foram importantes para manter mobilizados os eleitores, sobretudo os jovens e adultos entre 18 e 35 anos.

Para o analista e historiador brasileiro Lucas de Souza, da Georgia State University, o diferencial da líder democrata foi a mudança de paradigma na relação com eleitores. "A Stacey falou da necessidade de trabalhar na motivação das pessoas, indo até onde elas estão", comenta.

Segundo ele, a estratégia dela tirou o foco de atrair os eleitores em direção às lideranças. "Para chamar atenção para a importância do voto, os mobilizadores começaram a ir atrás do eleitor".

Uma outra tática usada por lideranças democráticas foi mobilizar novos eleitores em frente aos locais com eventos de naturalização de cidadania. "A pessoa já saia do local de naturalização com registro para votar", acrescenta.

Aliada a essas iniciativas focadas em imigrantes e comunidades asiáticas e latinas, também houve uma ação direcionada ao eleitorado negro do Estado, tradicionalmente com alta taxa de abstenção em eleições anteriores.

Neste ponto, igrejas, associações de bairro, ONGs direcionadas para mulheres, tiveram uma ação importante. "A Stacey Abrams reconhece a ação destes grupos de base. Ela se reconheceu como ícone, uma espécie de Avatar. Ela foi o rosto mais visível nessa campanha pelo comparecimento às urnas", analisa Lucas.

O consultor de Software Jourdan Hamilton, 35 anos, considera que o resultado na Geórgia foi importante não só pela virada democrata, mas também pela própria eleição do Rev. Warnock. "Se você olhar, vai ver que o Warnock é o primeiro senador negro eleito em um Estado do Sul, desde a reconstrução após a guerra civil do país", aponta.

Nascido nos Estados Unidos, Jourdan faz parte da primeira geração da família de origem jamaicana, nascida no país. Ele comemora o resultado das eleições e completa: "Eu acredito que nossa comunidade negra está altamente motivada, e orgulhosa deste momento".

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