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Mobilizando os eleitores

Com seu discurso, Trump tentou atrair os eleitores brancos de classe média que o elegeram

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2020 | 04h30

Donald Trump falou por 1 hora e 10 minutos no discurso de aceitação da nomeação da convenção republicana, em contraste com os 24 minutos de Joe Biden na semana anterior. Se alguém assistisse apenas, sem ouvir, teria talvez informações visuais mais importantes que as palavras.

Na audiência havia um grupo de agentes da CBP, a força de Proteção da Alfândega e da Fronteira. Trump lhes agradeceu por proteger o país da entrada de imigrantes ilegais. De uniforme, eles batiam palmas e pulavam. Como os militares na Venezuela chavista.

Os discursos do presidente, de sua filha Ivanka e, na noite anterior, da primeira-dama Melania, foram realizados nos jardins da Casa Branca. É a primeira vez que se tem registro de seu uso para pedir votos. Diante das críticas, Trump tripudiou, dizendo que os democratas se queixam porque “somos nós, não eles” que ocupam a Casa Branca.

Havia cerca de 1,5 mil convidados, a poucos centímetros de distância uns dos outros. Quase ninguém usava máscara. É o tipo de aglomeração que os epidemiologistas chamam de “super-proliferadora” do vírus. No final, fogos de artifício sobre o obelisco do Mall de Washington formaram a palavra “Trump”, num país enlutado pela morte de 180 mil pessoas por covid-19.

Todas essas cenas contrariam o conceito que dá nome ao partido pelo qual o presidente se candidata: “republicano” vem do latim “res publica”- “coisa do povo” -, que significa que o Estado não deve ser capturado por interesses privados. Essa separação nunca foi perfeita: seres humanos não o são.

 

Mas preservar a aparência republicana é parte de uma ética que representa um freio às intenções autoritárias e à corrupção. É nesse sentido que se diz que Trump não é do Partido Republicano, mas de um movimento trumpista, que ocupa a legenda republicana e conta com adesão de parte dos antigos quadros.

Essa análise não tem impacto negativo sobre os eleitores de Trump. Eles não veem dessa forma o que estou descrevendo. O que eles veem está em perfeita sintonia com a ideia de um líder viril, autêntico, sincero, genuíno, que não se acovarda diante das regras, sejam da política ou da epidemiologia. Esse é o aspecto da emoção. 

Na esfera lógica, o seguinte trecho do discurso de quinta-feira resume a campanha de Trump: “Esta é a eleição mais importante da história do país, na qual os eleitores escolherão entre salvar o sonho americano ou permitir que a plataforma socialista destrua nosso destino; criar empregos ou acabar com a indústria e mandá-los para fora como foi feito durante décadas; proteger os americanos que cumprem a lei ou ceder aos agitadores e criminosos; defender o modo de vida americano ou aderir a um movimento radical que o destruirá”.

Pronto. Isso é suficiente para mobilizar o eleitorado de Trump. E esse é essencialmente o objetivo de ambas as campanhas. Há poucos votos em disputa. Tanto que, segundo pesquisa do Instituto Ipsos, a convenção democrata não acrescentou apoio a Joe Biden: ele continua com 47% das intenções de voto e Trump com 40%. Em 2016, tanto Hillary Clinton quanto Trump ganharam 4 pontos depois de suas respectivas convenções, segundo o Ipsos.

Na média das pesquisas, Biden está na frente em cinco dos seis Estados nos quais o voto oscila: Flórida, Wisconsin, Pensilvânia, Michigan e Arizona. E empata com Trump no sexto, Carolina do Norte. 

Além de recuperar o apoio nesses Estados, Trump se esforçará para trazer de volta eleitores brancos que moram nos subúrbios de classe média, que o elegeram em 2016 e deram a maioria aos democratas na Câmara dos Deputados em 2018. Daí a ênfase na “lei e ordem”, para famílias assustadas com os saques e destruição nos distúrbios antirracistas. Esses votos são desejáveis, mas a prioridade é outra: animar os eleitores de Trump a comparecer mais do que os de Biden.

 

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