Modelo de êxito na Índia

Bihar, que era um Estado corrupto, afetado pela criminalidade e pobre, agora é segunda economia de maior crescimento no país

Lydia Polgreen, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2010 | 00h00

Durante décadas, o extenso Estado de Bihar foi alguma coisa entre uma piada e um mau exemplo, o oposto da potência global em alta tecnologia com rápido crescimento que a Índia tem procurado se tornar.

Os criminosos podiam contar com a proteção da polícia e não temiam processos. Assaltantes controlavam as estradas esburacadas e o sequestro era um dos negócios mais lucrativos do Estado. A violência grassava entre muçulmanos e hindus, entre castas superiores e castas inferiores. Sua economia, povoada por agricultores pobres vivendo da agricultura de subsistência e lutando ora contra enchentes ora contra secas, encolhia. O governo comandado por políticos que usavam a divisora política de identidade para consolidar seu poder, era tão corrupto que foi preciso cunhar uma expressão nova para descrevê-lo: Jungle Raj (algo como "a lei da selva").

O nome captava tudo que havia de errado na velha Índia - uma mescla combustível de crime, corrupção e política de castas num cadinho estatal que obstruía o crescimento econômico. Assim, quando Bihar anunciou, no início do ano, que havia alcançado uma taxa média de crescimento de 11% nos últimos cinco anos, tornando-se a segunda economia de maior crescimento do país, a notícia foi recebida como um sinal de que, mesmo os cantos mais intratáveis de atraso e miséria da Índia, estavam se transformando.

"Se até Bihar pode mudar, então qualquer lugar da Índia pode", disse Shaibal Gupta do Asian Development Research Institute, um grupo de estudo indiano independente. "Com boa governança, boa política, lei e ordem tudo é possível." A volta por cima de Bihar ilustra como um punhado de mudanças aparentemente pequenas pode dar grandes resultados nas regiões mais pobres e mal governadas da Índia. Demonstra também como serão cruciais os governos dos 28 Estados da Índia para as aspirações da Índia ao status de superpotência. Os governos estaduais são responsáveis por tudo, de escolas a hospitais, policiamento, construção e manutenção da maioria das estradas. Estados falidos, especialmente os grandes como Bihar e seu vizinho Uttar Pradesh, poderiam confirmar ou matar essas esperanças.

"A verdadeira mudança na Índia virá quando obtivermos o tipo certo de liderança nos níveis estadual e local - uma liderança visionária, moderna e compassiva que fortaleça as bases de nossa grande república", disse o primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, num pronunciamento para líderes empresariais em novembro.

Bihar é um modelo de como a liderança determina o desenvolvimento. Lalu Prasad, um astuto político populista cujo partido espalha uma mensagem de distribuir poder para a casta inferior, dirigiu o Estado por 15 anos. Sob o olhar de Prasad, sindicatos do crime sequestraram, extorquiram e roubaram protegidos por líderes políticos. O governo de Prasad fez pouco para melhorar as vidas dos moradores de Bihar. As estradas já deploráveis do Estado desintegraram-se. Suas escolas estavam em ruínas; os professores não compareciam ao trabalho. Os centros de saúde ficavam com menos pessoal que o necessário. Bihar abrigava algumas das pessoas mais doentes, mais pobres e que viviam menos na Índia, um catálogo melancólico para um Estado que em seus dias de glória, milênios atrás, abrigou um dos mais poderosos impérios do sul da Ásia e foi o lugar onde Buda atingiu a iluminação.

Apesar desse histórico, Prasad foi reeleito uma vez, e depois, quando foi obrigado a se afastar num escândalo de corrupção, ele nomeou sua mulher como interina. Ela também foi reeleita. Mas, em 2005, o atual ministro-chefe (governador), Nitish Kumar, de uma casta inferior, costurou uma aliança difícil, mas bem-sucedida, com a afluente casta superior que Prasad havia exilado do poder e a mais inferior dos dalits, ou intocáveis. Ele prometeu desmantelar o "Jungle Raj" de Prasad.

"Não foi um caso de má governança", disse Kumar numa entrevista. "A governança estava completamente ausente do Estado de Bihar." Quando Kumar assumiu, ele encontrou escritórios públicos cheios de pastas empoeiradas e máquinas de escrever. Era como se a maior parte do século 20 houvesse passado ao largo de Bihar.

Em primeiro lugar, ele enfrentou a criminalidade. Depois vieram as escolas e hospitais. Mais de 2,5 milhões de crianças em idade escolar não estavam frequentando escolas. Clínicas que estavam atendendo a 30 pacientes por mês porque não tinham médicos e remédios foram recuperadas. Ele afrouxou as regras burocráticas para avançar mais rapidamente importantes projetos de infraestrutura. Esse progresso, e suas limitações, está claramente exposto nas aldeias da zona rural de Bihar.

Mas Gulab Chand Ram, um agricultor sem terra dalit em Pawna, disse que o governo fez pouco para lidar com os problemas dos muito pobres. "Nós, agricultores, ainda não temos terra, não temos água." A primeira camada de reformas produziu resultados espetaculares, mas problemas mais complexos como mudar as leis fundiárias feudais para dar terra a pessoas como Ram serão muito mais espinhosos, segundo analistas.

E o crescimento de Bihar é certamente relativo, e por conta de sua condição lamentável até recentemente, os menores avanços causam um impacto desproporcional. Quase nenhum investimento privado veio para Bihar apesar das melhorias.

Kumar, apesar de suas realizações, enfrentará uma dura batalha eleitoral ainda este ano. Seu principal oponente provavelmente será Prasad, que deprecia o sucesso de Bihar. "Estou comprometido com as pessoas pobres, as pessoas deprimidas, as pessoas de casta inferior." É uma mensagem que não deve ser desprezada, disse Gupta. "A política de identidade é forte", disse ele. "Esperemos que os eleitores optem mais pelo desenvolvimento que pela casta. Mas em Bihar, nunca se sabe." / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É CORRESPONDENTE

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