Moderado aceita como vice ideólogo do kirchnerismo

Escolha de Carlos Zannini para compor chapa governista seria o aval de Cristina a uma candidatura que una seu grupo político

RODRIGO CAVALHEIRO, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2015 | 02h01

O principal candidato governista à presidência argentina, Daniel Scioli, deu sinais de alinhamento com o kirchnerismo ao nomear um dos ideólogos desse movimento, Carlos Zannini, como vice em sua chapa. É a primeira pista concreta de como seria o mandato de Scioli, um peronista moderado que governa a Província de Buenos Aires, e do grau de autonomia em relação à presidente Cristina Kirchner e a sua política econômica.

O anúncio, feito na noite de terça-feira, enfraquece o outro pré-candidato, o ministro dos Transportes, Florencio Randazzo, que sofre pressão para desistir da candidatura e disputar o governo da Província de Buenos Aires. A indicação marca uma reviravolta, uma vez que Zannini era um dos principais apoiadores de Randazzo.

Titular da Secretaria Técnica e Legal, Zannini conhece bem os projetos aprovados no Congresso em 12 anos de governo Kirchner. Randazzo é o preferido da ala mais dura do kirchnerismo, corrente do peronismo caracterizada por só negociar com rivais como último recurso. "A escolha não é um fato menor. Zannini não acrescenta nada em votos, mas resolve a relação de Scioli com o kirchnerismo", disse ao Estado Carlos de Angelis, cientista político da Universidade de Buenos Aires (UBA).

Randazzo argumentava que Scioli não é um kirchnerista de verdade, mas um conservador dentro do peronismo. Por isso, ele perdeu força após a bênção dada pela presidente à candidatura de Scioli, o mais bem colocado na disputa pela Casa Rosada. Ele aparece com 33,3% da intenções de voto, ante 32,2% de Mauricio Macri, prefeito de Buenos Aires, segundo pesquisa da consultoria M&F. "O que Scioli precisava era tirar Randazzo da disputa interna. Coma popularidade de Cristina em alta, talvez seja o que ele precisa para ganhar", diz De Angelis.

Scioli, que foi vice-presidente de Néstor Kirchner, marcou seu governo na Província de Buenos Aires pela moderação e por não responder ao "fogo amigo" vindo da ala kirchnerista. "Com Zannini, Cristina mostra querer que Scioli ganhe, mas não que governe. A dúvida é se Scioli conseguirá manter sob controle Zannini, uma figura técnica e de baixo perfil até hoje. Para o mercado, o sinal é negativo, uma vez que indica uma continuidade na política econômica", diz o sociólogo Marcos Novaro, do Centro de Investigações Políticas e professor da UBA.

Um possível reflexo da indicação é Scioli afastar-se dos eleitores avessos ao kirchnerismo ou dos que dizem querer "continuidade com mudanças", cerca de um terço do eleitorado segundo a M&F. Zanini representa a ideia de "continuidade pura", tanto no ponto de vista das negociações políticas (o vice é o presidente do Senado) quanto na economia.

O anúncio foi interpretado ainda como uma aposta do governo em vencer a eleição no primeiro turno - o que ocorre se um candidato alcançar 45% dos votos válidos ou 40% do total, com uma margem de 10 pontos porcentuais sobre o segundo colocado.

Os partidos têm até a meia-noite de sábado para inscrever os pré-candidatos na primária de agosto, que definirá quem disputará as eleições de outubro. "Complemento a chapa. É uma honra ser vice de quem foi vice de Néstor. É a continuidade de um caminho", disse Zannini, em entrevista na qual admitiu ter consultado a presidente antes de aceitar o cargo.

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