AFP / ATTA KENARE
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Moderados buscam espaço em eleição no Irã após acordo

No entanto, para observadores, ainda pode ser cedo para essa ala, do presidente Rohani, colher os frutos da negociação nuclear

Renata Tranches , O Estado de S. Paulo

21 de fevereiro de 2016 | 03h00

Iranianos irão às urnas na sexta-feira para renovar o Parlamento e a influente Assembleia dos Especialistas em um primeiro e grande teste para os moderados e reformistas após a negociação internacional em torno do programa nuclear do país.

Apesar do clima de otimismo que antecedeu a eleição, na opinião de analistas e observadores, não estava claro se os efeitos da negociação - o levantamento das pesadas sanções sobre a economia iraniana - terão impacto para os alinhados ao moderado presidente Hassan Rohani.

Na sexta-feira passada, primeiro dia de uma curta campanha que antecede a votação, iranianos foram para as ruas para apoiar essa corrente, na qual cada ação é cuidadosamente vigiada pelos conservadores da política do país. No centro de Teerã, homens e mulheres, como relatou a agência Associated Press, gritavam frases como “reformas vencerão as eleições”.

Para o iraniano Hassan Hakimian, diretor do London Middle East Institute (Londres), não há dúvidas de que a negociação internacional representou uma vitória para Rohani, ainda que tudo tenha ocorrido sob o aval do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei. Na sua opinião, o presidente merece o mérito por tornar a negociação uma prioridade e por considerar as tensões internacionais com relação ao programa um conflito absolutamente desnecessário. 

O Irã passou por período de animosidade internacional alimentada principalmente pela retórica inflamada do ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad e centrada nas desconfianças com relação ao programa nuclear que o país sempre assegurou ser pacífico. Mas em 2013, cansados dos efeitos que as sanções causaram para a economia do país, os iranianos elegeram Rohani, que destravou as negociações e levou o Irã de volta ao mercado internacional.

No entanto, a aplicação do acordo está apenas começando. “Levará algum tempo para um impacto real na vida das pessoas. Por isso, o efeito para as eleições será basicamente psicológico”, afirmou Hakimian, em entrevista ao Estado.

O Parlamento iraniano, unicameral, está dividido, na prática, em correntes, não em partidos, e é dominado há anos pelos conservadores. A inscrição para concorrer às eleições é livre, mas os nomes passam pelo crivo rigoroso do Conselho dos Guardiões. A mídia estatal iraniana afirmou, na quinta-feira, que de 12 mil nomes inscritos, 6,2 mil, incluindo 586 mulheres, foram aceitos para concorrer a uma das 290 vagas do Parlamento. Veículos internacionais têm noticiado que reformistas e moderados decidiram se unir para tentar crescer em número de cadeiras e desafiar os conservadores no Legislativo. A votação será um teste também para Rohani, que disputará a reeleição no ano que vem.

Em recente entrevista ao Estado, o embaixador do Brasil no Irã, Santiago Irazabal Mourão, relatou que a percepção que se tem da comunidade internacional em Teerã, da qual ele disse compartilhar, é que se a negociação tivesse ocorrido um pouco mais cedo e a população pudesse notar alguma mudança, o impacto seria maior. Mesmo assim, há otimismo entre a população, explica.

“Evidentemente, a população iraniana está muito esperançosa de que Rohani poderá levar adiante um projeto de modernização da economia, de crescimento do país.”

Na sexta-feira, haverá também eleição para a Assembleia dos Especialistas, acompanhada com especial atenção internacional, uma vez que possivelmente sua nova composição escolherá o líder supremo que substituirá Khamenei, de 76 anos, - será apenas o terceiro desde a Revolução Islâmica de 1979. Além de escolher, cabe ao estratégico órgão monitorar o desempenho do líder supremo, quem tem a última palavra em todos os assuntos do país. As 88 vagas serão renovadas para um mandato de oito anos.

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