Moderados do Talebã estariam 'dispostos a aceitar presença dos EUA no Afeganistão'

Relatório baseado em entrevista com líderes diz que parte do grupo renunciaria às ligações com a Al-Qaeda em um acordo de paz.

BBC Brasil, BBC

10 de setembro de 2012 | 12h36

Membros moderados do Talebã estão dispostos a aceitar a presença de militares americanos no Afeganistão, segundo um relatório divulgado pelo instituto britânico independente de estudos sobre defesa e segurança Royal United Services.

De acordo com o relatório, líderes do grupo estariam prontos para negociar um cessar-fogo como parte de um acordo de paz, que envolva a maior participação talebã no governo.

O documento se baseia em entrevistas com importantes lideranças do Talebã, que falaram na condição de não serem identificados, e com negociadores do país. Os entrevistados incluem um dos fundadores do grumo extremista e um ex-comandante militar.

No entanto, todos eles fazem parte do chamado "Talebã Quetta Shura", grupo de líderes da antiga geração, que participaram do governo talebã no Afeganistão durante os anos 1990. O Quetta Shura é considerado uma ala moderada do Talebã, responsável pela Comissão Política, e é liderado pelo mulá Mohammad Omar.

Os entrevistados disseram que a liderança e a base do grupo extremista no Afeganistão poderiam renunciar completamente aos laços com a Al-Qaeda e a estabelecer um cessar-fogo como parte de um plano de paz.

Eles também estariam abertos à negociação sobre a Constituição do país e a educação de mulheres, mas afirmam que não negociarão com o governo do presidente Hamid Karzai em razão do que chamam de "histórico de corrupção".

"Eles não confiam em Cabul para realizar eleições justas, o que sugere que, mesmo que os moderados entrevistados prevalecessem nos círculos do Talebã, ainda haverá sérios obstáculos a um acordo de paz", diz o levantamento.

Reconhecimento político

Os membros do Quetta Shura dizem também que o grupo aceitaria a presença militar de longo prazo das Forças Armadas americanas operando em cinco bases - Kandahar, Herat, Jalalabad, Mazar-e-Sharif e Cabul - desde que elas não "limitem a independência afegã e a jurisprudência islâmica".

Segundo o Royal United Services, a afirmação sugere que o grupo pode aceitar operações americanas contra a Al-Qaeda, mas não que as bases no país sejam usadas para lançar ataques a outros países ou para interferir na política local. Ataques com aeronaves não-tripuladas a redutos extremistas no Paquistão poderiam ser aceitos, afirmam eles, mas deveriam ser negociados com antecedência e obedecer às leis internacionais.

Eles dizem ainda que o Talebã poderia usar sua autoridade para "garantir que a Al-Qaeda não opere em solo afegão", em troca de "algum tipo de reconhecimento político", que passaria por fazer parte do governo oficial.

O levantamento afirma que as "origens e ideologias sunitas diferentes" do Talebã e da Al-Qaeda foram mencionadas em todas as entrevistas. Os altos oficiais afirmam também que Osama bin Laden foi convidado ao país não pelo próprio Talebã, mas pelos membros do governo mujahedin que ele (o Talebã) tirou do poder.

Os oficiais afegãos também disseram considerar que as conexões entre o Talebã e a Al-Qaeda antes dos ataques de 9 de setembro de 2001 nos Estados Unidos foram "um erro" e que não sabiam dos planos para o atentado, que teriam sido feitos dentro do país. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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