Dustin Chambers/The New York Times
Dustin Chambers/The New York Times

Modéstia de Carter é notícia em era Trump

Ex-presidente vive no campo, em casa mais barata que o carro dos agentes que o protegem

Kevin Sullivan e Mary Jordan / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2018 | 05h00

Jimmy Carter termina seu jantar no sábado, dá o seu famoso sorriso e brinca com Rosalynn, sua mulher há 72 anos: “Vamos, garota”. Ela ri e pega sua mão, e os dois vão para a cozinha repleta de bottons de campanha, fotos de líderes mundiais e umas latas de Billy Beer fechadas. Saem então pela porta dos fundos, onde três agentes do serviço secreto aguardam.

Eles fazem isso quase todo fim de semana nesta pequena cidade onde nasceram – ele está com quase 94 anos, ela 91. Jantam na casa de seu amigo Jill Stuckey, com copos de plástico de água gelada e uma taça de Chardonnay de uma marca em oferta, e depois caminham 800 metros de volta para sua casa construída em 1961.

Quando Carter deixou a Casa Branca depois de um mandato tumultuado, derrotado por Ronald Reagan na eleição de 1980, ele retornou a Plains, uma região rural de plantação de algodão e amendoim que até hoje registra uma taxa de pobreza de 40%.

O ex-presidente democrata decidiu não participar de conselhos de direção de empresas, nem dar palestras remuneradas porque, disse, não desejava “se beneficiar financeiramente do fato de ter estado na Casa Branca”. Carter tinha 56 anos quando retornou a Plains, vindo de Washington. Ele disse que sua empresa de amendoim, gerida por um fundo fiduciário durante sua presidência, tinha US$ 1 milhão de dívidas e foi obrigado a vendê-la. 

Decidiu então que sua renda viria de seus textos. Escreveu 33 livros, sobre sua vida e sua carreira, sua fé, a paz no Oriente Médio, os direitos das mulheres, o envelhecimento, a pescaria, a carpintaria, e até um livro para crianças escrito com sua filha Amy. Com a renda dos livros e uma pensão anual de US$ 210.700 que todos os presidentes recebem, o casal vive confortavelmente.

Carter é ex-presidente há 37 anos, período mais longo do que qualquer outro presidente na história. Seu estilo de vida é cada vez mais raro nesta era do presidente Donald Trump, bilionário com banheiros dourados em seu jato privado, uma cobertura em Manhattan e uma propriedade em Mar-a-Lago.

Carter é o único presidente na era moderna a morar o tempo todo na casa em que viveu antes de entrar na política – uma casa na zona rural, com dois quartos, avaliada em US$ 167 mil, um valor menor do que os carros blindados do serviço secreto estacionados do lado de fora.

Ex-presidentes com frequência voam em jatos privados emprestados por amigos ricos. O casal Carter sempre viaja em aviões comerciais. Carter custou aos contribuintes americanos menos do que qualquer outro presidente, com uma conta total em nome dele no atual ano fiscal de US$ 456 mil cobrindo aposentadoria, um escritório, funcionários e outras despesas. Menos do que a metade do reservado para George H. Bush, US$ 952 mil. Os três outros presidentes vivos – Clinton, George W. Bush e Barack Obama – custam para os contribuintes mais de US$ 1 milhão, cada um, por ano.

Carter não tem os benefícios médicos federais para aposentados, pois trabalhou pelo governo por quatro anos, não completando os cinco anos necessários para ter esse direito. Ele diz que tem um plano de saúde pela Emory University, onde deu aula durante 36 anos.

O governo federal paga um escritório para cada ex-presidente. O de Carter, no Carter Center em Atlanta, é o menos dispendioso, custará US$ 115 mil este ano. Seus gastos com o escritório são uma fração do contabilizado por Obama, que é de US$ 536 mil ao ano. 

“Sou um grande admirador de Harry Truman. Ele é meu presidente favorito e realmente tento copiá-lo”, disse Carter, que escreve seus livros em uma garagem adaptada em sua casa. “Ele deu um exemplo que para mim foi admirável.” Mas embora Truman tenha se retirado para sua cidade de Independence, em Montana, ele morava em uma casa elegante que foi de seus sogros muito ricos.

Plains é um pequeno círculo da zona rural da Geórgia e cerca de 700 pessoas vivem aí, num lugar que é um museu vivo a Carter. O Jimmy Carter National Historic Site é basicamente a cidade inteira, atraindo quase 70 mil visitantes ao ano e trazendo US$ 4 milhões para a economia do condado.

Carter usa sua pós-presidência para apoiar programas de saúde global, direitos humanos e eleições imparciais em todo o mundo, através do seu Carter Center em Atlanta. Auxiliou na reforma de 4.300 casas em 14 países dentro do programa Habitat for Humanity e com seu martelo e caixa de ferramentas estará trabalhando em casas para pessoas de baixa renda em Indiana no fim do mês.

O passo de Carter está um pouco instável atualmente, três anos depois de ser diagnosticado com um melanoma no fígado e no cérebro. Depois da radioterapia e quimioterapia, ele disse que se livrou do câncer. Em outubro, ele se tornará o segundo presidente a chegar aos 94 anos. George H. Bush completou 94 anos em junho

O casal caminha diariamente – com frequência até a Church Street, a rua principal de Plains, por onde passeiam desde os anos 20. Carter diz que esse lugar o formou e semeou suas crenças sobre igualdade racial. Sua juventude passada ali durante a Grande Depressão fez dele uma pessoa sem pretensões e parcimoniosa. 

Seus anos de presidência, de 1977 a 1981, são lembrados pelas longas filas nos postos de gasolina e a crise dos reféns no Irã. “Posso ter exagerado o sofrimento dos reféns quando estava no meu último ano de governo. Mas fiquei tão obcecado com eles e com suas famílias que desejava fazer alguma coisa para trazê-los de volta sãos e salvos, o que consegui.”

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Quando analisa em retrospectiva a sua presidência, Carter diz que o que mais o orgulhou foi “manter a paz e apoiar os direitos humanos”, os acordos de Camp David que ele intermediou selando a paz entre Israel e Egito, e seu trabalho para normalizar as relações com a China. Em 2002, ele recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelos seus esforços.

Carter tem se mostrado muito silencioso com relação ao presidente Trump. Contudo, dois anos depois de o magnata assumir o governo dos Estados Unidos, ele não se conteve. “Acho que ele é um desastre. No campo dos direitos humanos e quanto ao cuidado com as pessoas e tratamento delas por igual.”

Para ele, os valores morais e éticos da nação ainda estão intactos e os americanos acabarão por retornar “ao que é certo e o que é errado, o que é decente e não, ao que é verdade e o que é mentira”. “Mas duvido que isso ocorra enquanto estou vivo.” / Tradução de Terezinha Martino

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