REUTERS/Francis Mascarenhas
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Modi estimula divisão na democracia indiana

Os 200 milhões de muçulmanos da Índia temem que o primeiro-ministro esteja construindo um Estado hindu

The Economist*, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2020 | 04h00

Mês passado, a Índia mudou a lei para tornar mais fácil para fiéis de todas as religiões, exceto o Islã, a aquisição da cidadania indiana. Ao mesmo tempo, o Partido Bharatiya Janata (BJP) quer compilar um registro de 1,3 bilhão de cidadãos para caçar imigrantes ilegais. Parece uma tecnicalidade, mas muitos dos 200 milhões de muçulmanos do país não têm documentos para provar que são indianos e correm o risco de se tornarem apátridas. De forma ameaçadora, o governo ordenou a construção de campos para deter os que forem pegos.

Você pode pensar que o esquema do BJP foi um erro de cálculo. Provocou protestos. Estudantes e até a mídia bajuladora se pronunciaram contra o primeiro-ministro, Narendra Modi, por sua determinação de transformar a Índia, de um lugar tolerante e multirreligioso, em um Estado hindu chauvinista. De fato, o esquema parece o passo mais ambicioso de um projeto de provocação de várias décadas. 

O BJP começou a ganhar destaque pela demolição de uma mesquita na cidade de Ayodhya, para dar lugar a um templo para Ram, divindade hindu. A destruição, em 1992, por uma multidão de extremistas hindus, impulsionou a ascensão do partido. Da mesma forma, um massacre de muçulmanos no Estado de Gujara, em 2002, quando Modi era ministro-chefe, fez dele um herói para os nacionalistas hindus.

Lamentavelmente, o que tem sido o néctar eleitoral para o BJP é um veneno político para a Índia. Ao minar os princípios seculares da Constituição, as iniciativas de Modi ameaçam causar danos à democracia da Índia, que podem durar décadas. Elas também podem levar a carnificinas.

Modi e o BJP se beneficiarão politicamente ao criar divisões sobre religião e identidade nacional. Esses assuntos mantêm os nacionalistas hindus energizados – sempre um benefício, dada a implacável sequência de eleições da Índia. Eles também desviam a atenção de tópicos embaraçosos como a economia, que passa por dificuldades desde a vitória eleitoral do BJP, ano passado.

Mais importante que isso, Modi calcula que uma minoria de indianos simpatiza com suas insinuações de que os muçulmanos são perigosos, sempre planejando acabar com os hindus e entregar o país ao Paquistão. Isso é suficiente para mantê-lo no cargo. Por causa do sistema eleitoral, que dá a vitória por maioria simples, e uma oposição dividida, o BJP domina o Parlamento com apenas 37% dos votos.

O plano de compilar um registro de indianos genuínos como parte de uma caçada a estrangeiros pode se arrastar por anos, inflamando paixões à medida que a lista é compilada, contestada e revisada. Como esse registro será elaborado e quais são as consequências da exclusão são questões ainda confusas. De fato, Modi está alegando que foi mal interpretado. Enquanto isso, a agitação ajuda a reforçar a noção de que os hindus – cerca de 80% da população – estejam sob ameaça de forças obscuras que só ele tem a coragem de enfrentar.

Isso coloca em perigo a ideia inspiradora da Índia como a maior democracia do mundo. As políticas de Modi discriminam seus compatriotas muçulmanos. Por que o governo abriga hindus perseguidos no Afeganistão, Bangladesh e Paquistão, mas não aceita um único muçulmano oprimido? A disputa pela cidadania é apenas a mais recente de uma série de insultos, desde a ascensão de vigilantes do BJP, que se acredita terem matado muçulmanos, até o castigo coletivo do povo do Vale da Caxemira, que sofreu prisões arbitrárias, toque de recolher e blecaute na internet por cinco meses.

Desde a independência, a Índia confundiu previsões de que sua democracia desmoronaria caso abrigasse seus muitos distritos eleitorais de idioma, etnia, casta e religião. Um governo secular e imparcial, mesmo com falhas, protege todos esses grupos. A perseguição deliberada de um deles constitui uma ameaça implícita contra todos – e coloca o sistema político em risco. 

Os eleitores devem lembrar que o BJP experimentou políticas que prejudicam outras minorias, desde hindus de castas baixas que desafiam a visão de religião do partido a pessoas que falam outros idiomas que não o hindi. Como sua demagogia tem um custo humano, Modi também está maculando a memória de Mahatma Gandhi. 

Nesse contexto, muitos muçulmanos foram linchados até a morte por violações do hinduísmo, como amar uma mulher hindu ou matar uma vaca. De tempos em tempos, o incentivo ao sentimento antimuçulmano leva a massacres como o de Gujarat, no qual mais de mil pessoas foram mortas. Ao provocar hindus e enfurecer muçulmanos, o BJP torna mais provável um novo derramamento de sangue.

Modi imagina que pode manter as tensões sob controle. Mas, mesmo que ele esteja apenas explorando cinicamente o fanatismo religioso, muitos recrutas do nacionalista hindu são verdadeiros crentes. Eles não são facilmente contidos, como em Gujarat. Com sua retórica bélica contra o Paquistão e a abordagem da cidadania, o premiê aumentou as expectativas dos fanáticos. Modi pode não querer levar as coisas longe demais, mas eles não terão tais escrúpulos.

A Suprema Corte, que rejeitou suspender a lei de cidadania, deve declará-la inconstitucional. E, em vez de alimentar a hostilidade entre duas das grandes religiões do mundo, Modi deve procurar outros caminhos até o coração dos eleitores. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

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