Modos de ajudar o movimento verde no Irã

Não devemos prejudicar os iranianos, mas manter abertas as portas de comunicação para que recebam informações e lembrar dos protestos e da repressão de um ano atrás

, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2010 | 00h00

Não podemos nos esquecer do Irã. É nosso dever honrar a memória de Neda no primeiro aniversário das eleições que o presidente Mahmoud Ahmadinejad venceu de maneira fraudulenta. Encarceramento, tortura, violação e execução são as oferendas que os capangas da República Islâmica trazem para honrar Alá, o misericordioso.

Diante de uma repressão tão violenta, o movimento verde sofreu muito - mas não foi derrotado. O Irã nunca mais será o mesmo país de antes das eleições de 12 de junho de 2009. Na grande manifestação de três dias mais tarde, uma das maiores da história, tudo foi transformado, completamente mudado. Na repressão que se seguiu, uma terrível beleza nasceu. O processo histórico pode levar anos até chegar à sua conclusão, mas, um dia, conforme a situação econômica piorar e o descontentamento se espalhar para um número cada vez maior de setores da sociedade, o movimento voltará com força, embora talvez sob uma forma diferente.

No fim, haverá estátuas de Neda em Teerã e homenagens aos mártires desta luta pela liberdade, assim como hoje há monumentos homenageando os mártires da guerra entre Irã e Iraque.

É preciso, também, que não nos esqueçamos de que este movimento surgiu espontaneamente dentro de uma sociedade muçulmana, dedicado a transformar em algo muito diferente o mais longevo e até hoje o mais formidável regime islâmico do mundo contemporâneo.

Agonia. Para se ter uma ideia da agonia e do êxtase vivenciados no Irã no último ano, basta ler Morte ao Ditador!, de Afsaneh Moqadam. Trata-se de um relato sobre a fraude nas eleições e a tentativa de revolução verde conforme vivenciadas por um jovem, Mohsen, que é arrebatado pela excitação dos protestos, mas acaba detido, submetido à tortura e a repetidas violações por parte de seus captores.

(Mohsen sente-se humilhado demais para admiti-lo, mas os horríveis efeitos são detalhados à mãe dele por um médico) A narrativa política mais ampla é entrelaçada a este fio condutor central e biográfico de maneira vivaz e consciente. Um dos aspectos que emergem com maior clareza é o papel vital desempenhado pelas mulheres, assunto abordado também por Shirin Ebadi, que recebeu o Nobel da Paz. A própria mãe de Mohsen juntou-se às manifestações, independentemente do consentimento dos homens de sua família, e compreendemos que para ela isso foi uma emancipação dupla.

"Afsaneh Moqadam" é um pseudônimo, e alguns nomes e detalhes foram alterados para proteger os envolvidos, mas conversei com o autor e não tenho dúvida de que este relato assustador é muito fiel a uma história real.

Recomendo também o filme americano For Neda, disponível no YouTube, sobre Neda Agha-Sultan, a jovem que foi morta a tiros numa das primeiras manifestações em massa dos verdes. O filme peca um pouco pelo excesso de sentimentalismo, ao menos para meu gosto, mas merece ser assistido por causa das corajosas reportagens de Saeed Kamali Deghan, que voltou ao Irã para filmar entrevistas com a família de Neda. Apesar dos esforços do regime para bloquear o acesso ao filme no país, parece que muitos iranianos já o assistiram na rede. Por fim, chamo a atenção para o mais recente relatório da Anistia Internacional sobre o Irã, com seu sóbrio catálogo de detenções, torturas e numerosas execuções.

Enquanto isso, na quarta-feira EUA, Grã-Bretanha e outras potências ocidentais conseguiram a aprovação de uma nova rodada de sanções ao Irã no Conselho de Segurança da ONU. Estas sanções cercam ainda mais o regime iraniano, afetando alguns dos líderes e empreendimentos da Guarda Revolucionária. Mas as sanções estão relacionadas apenas à questão nuclear, e não aos abusos dos direitos humanos.

Disto emergem duas questões: qual é a melhor maneira de impedir que o Irã obtenha uma bomba nuclear? E como as possíveis estratégias para a questão nuclear interagem com a torturada situação da política interna do país? Duvido muito que sanções com as quais a China possa concordar sejam poderosas o bastante para impedir que o Irã alcance o limiar da bomba atômica. Mas elas serão capazes de enfraquecer a situação econômica do país e, assim, aumentar potencialmente o descontentamento social que alimenta a oposição.

Alguns dizem que o Ocidente deveria ter apresentado uma resposta mais favorável à recente proposta turco-brasileira de retirar do Irã parte de sua reserva de urânio (frustrados, Turquia e Brasil votaram contra as sanções). Não acredito que isso pudesse impedir o país de avançar secretamente rumo às armas nucleares.

Solidariedade. A opção de bombardear o Irã, defendida pelos mais belicosos nos EUA e em Israel, provavelmente teria como resultado uma nova onda de solidariedade patriótica para com o regime. No outro extremo do espectro, um número cada vez maior de especialistas em política externa em Washington diz agora em particular que precisamos aprender a conviver com um Irã nuclear - e também a "contê-lo" . Mas o risco de dar início a uma corrida armamentista entre sunitas e xiitas no Oriente Médio é muito sério, e tal "sucesso" também fortaleceria o regime de Mahmoud Ahmadinejad em seu próprio país. Assim, temos quatro alternativas, e nenhuma delas é satisfatória.

Resta a esperança de que se instale no Irã um governo mais responsável. É verdade que os líderes do movimento verde não diferem tanto quanto gostaríamos da posição do atual regime em relação às armas nucleares. Mas um governo mais popular e legítimo, buscando melhores relações com o restante do mundo, poderia criar uma dinâmica e um conjunto de relações muito diferentes em se tratando da questão nuclear.

Metas. Como e quando esta mudança política doméstica chegará é uma questão prática e moral que deve ser respondida pelos próprios iranianos. A experiência de outros países sugere que isso dependerá da capacidade do movimento de formular metas mais claras e mais estratégicas, conservando a disciplina pacífica e demonstrando criatividade para encontrar novas táticas de protesto; de persuadir outros grupos sociais afetados pelo declínio da economia (trabalhadores, funcionários públicos, mercadores); e de explorar as cisões cada vez maiores dentro do regime. (Uma investigação recente promovida pelo Birô de Jornalismo Investigativo e pela Guardian Films documenta um número expressivo de deserções entre a Guarda Revolucionária.)

O Irã será libertado pelos iranianos e não por nós. Mas, nas margens, há algumas coisas que podemos fazer. Em primeiro lugar, não devemos prejudicá-los. Numa versão política do juramento de Hipócrates, devemos examinar cada passo dado em relação à questão nuclear para nos assegurarmos de não estarmos na verdade interferindo negativamente com o movimento interno pela mudança. Em segundo lugar, devemos manter abertas as linhas de comunicação e informação, para que os iranianos dentro e fora do país possam contar uns aos outros o que está havendo por lá.

O canal da BBC transmitido em persa não deve sob hipótese alguma tornar-se vítima dos cortes nos gastos públicos britânicos. Devemos redobrar nossos esforços para desenvolver tecnologias capazes de furar os bloqueios à internet, para que todos os iranianos tenham acesso a filmes como For Neda, e também ao jornalismo cidadão produzido no país. Em terceiro lugar, nossos líderes devem enunciar com mais clareza que nossa política para o Irã é também uma resposta à repressão brutal no país. Estamos preocupados com os direitos deles, e não apenas com nossa segurança.

Por último, mas não menos importante, devemos nos lembrar para sempre do que ocorreu ao longo do último ano, e ajudar os iranianos a fazer o mesmo. Aquilo que os tiranos mais desejam é que seu povo e o mundo exterior se esqueçam. O escritor checo Milan Kundera observou certa vez que "a luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento". A luta é de homens e mulheres. De Mohsen e de sua mãe. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É HISTORIADOR E ESCRITOR

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