Moinhos do Brasil enfrentam 'agonia' esperando eleição argentina

A indústria de trigo do Brasil, quejá gastou este ano 1 bilhão de dólares em importações do cerealda Argentina, espera pela conclusão da eleição no país vizinhopara realizar com clareza o plano de compras da safra 2007/08,disseram presidentes de empresas. As pesquisas apontam que a primeira-dama da Argentina,Cristina Fernández de Kirchner, deverá vencer as eleições nodomingo já no primeiro turno, e, assim, os moinhos brasileirosacreditam que o principal fornecedor de trigo volte a liberaras licenças de exportação do grão, suspensas desde março. A Argentina, com objetivo de controlar a inflação em meio àalta das commodities, suspendeu novas licenças de exportaçãopara garantir o abastecimento interno. E as importaçõesrealizadas pelo Brasil desde março foram feitas apenas compapéis emitidos antes da suspensão, já esgotados. "A primeira coisa que esperamos é a liberação de registros.Se a Cristina não ganhar no primeiro turno, vai prorrogar nossaagonia, de não saber o que fazer", disse Luiz Martins,presidente do moinho Anaconda e presidente do sindicato daindústria do trigo de São Paulo. Martins acredita que, se houver segundo turno, o governoargentino vai demorar ainda mais para tomar uma decisão sobreos registros da safra nova do país, ou mesmo sobre eventualaumento na tarifa de exportação. Ele acredita que o governoatual hesitaria em realizar mudanças que possam ser vistas deforma negativa por setores do país. O mercado especula que o governo liberaria licenças após aseleições, mas elevaria a tarifa para aumentar receitas e aomesmo tempo reduzir o apetite exportador, o que poderiadesagradar produtores e explicaria a demora para a decisão. "Seja quem ganhar (a eleição), vai ter que abrir aexportação", declarou Martins, de olho na colheita do cerealargentino, que ganhará força nos próximos meses. Segundo ele, "está em cima da hora" para se programarcompras, principalmente para os moinhos do Nordeste, região queconta menos com o trigo nacional e mais com o importado, pois aárea produtora está distante, no Sul do Brasil. A situação dos moinhos do centro-sul só não é maispreocupante porque o Brasil está no período de colheita, quedeve ficar em cerca de 3,5 milhões de toneladas, para umconsumo anual de aproximadamente 10 milhões de toneladas. A safra nacional, que começou a chegar ao mercado emsetembro, reduz a necessidade do produto importadoimediatamente, mas se a decisão do governo argentino seprolongar, os moinhos terão de buscar em outros países, àsvezes pagando taxas de importações não existentes no Mercosul. "Eles (argentinos) sempre foram fornecedores naturais doBrasil... Se não comprar da Argentina, vou comprar dos EstadosUnidos, do Canadá, e depois, vou ficar com o mico na mão...". Entre janeiro e setembro, o Brasil importou da Argentina 5milhões de toneladas, ante 4,5 milhões no mesmo período do anopassado. As importações cresceram porque a safra anteriorbrasileira foi fortemente prejudicada pelo clima. Além disso, diante da suspensão dos registros e da quebrada produção anterior, moinhos já fizeram compras atípicas emais caras fora do Mercosul este ano, importando até agora doCanadá e dos EUA um volume de quase 400 mil toneladas. INCERTEZAS REDUZEM NEGÓCIOS "Tudo indica que depois das eleições o governo argentinoretorne a emissão de registros", disse Lawrence Pih, presidentedo Moinho Pacífico, outra grande empresa do setor no Brasil. Mas ele lembrou que, com os registros suspensos, osnegócios da colheita futura argentina estão atrasados, e asexportações contratadas giram em torno de 2,5 milhões detoneladas, de uma safra que deve ser de cerca de 15 milhões. "Em novembro, no mínimo 4 milhões de toneladas normalmentejá teriam sido vendidas para o Brasil e outros destinos", dissePih, apontando que os argentinos deixaram de negociar mais emmomentos de alta no mercado devido às incertezas. Um outro trader de uma multinacional que atua no Brasil ena Argentina está mais preocupado. "A questão é: será que elaganha no primeiro turno? Será que o secretariado já está prontopara tomar uma decisão ou não? Ou vai entrar uma nova equipe?" "Há a incerteza de quando, quem e como vai ser decididoisso. Se as licenças vão ser por cotas, se vão ser mensais, porvolume...", disse a fonte, que espera uma decisão até 15 denovembro, quando começam as primeiras importações da safra.

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