AFP PHOTO / GEORGE CASTELLANOS
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Moisés Naim: A banalidade do mal estampada na crise da Venezuela

Nicolás Maduro posa de democrata em artigo a jornal espanhol, enquanto seu país afunda na maior hiperinflação latino-americana do século 21 e na escassez de alimentos

O Estado de S.Paulo

07 Maio 2018 | 05h00

A banalidade de Nicolás Maduro só é superada por sua crueldade. Que a maldade pode ser banal isto já nos foi explicado por Hannah Arendt. Depois de assistir ao julgamento de Adolf Eichmann em 1961, ela escreveu que sua maior surpresa foi descobrir o quão banal era esse ser humano monstruoso. Eichmann foi um dos principais organizadores do Holocausto, quando foram assassinadas mais de 6 milhões de pessoas.

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Arendt conta que Eichmann não era muito inteligente, não completou os estudos secundários e só encontrou emprego como ambulante graças aos contatos da família. Segundo a filósofa, ele se refugiava em “frases feitas, clichês e na linguagem oficial”. Um dos psicólogos que o examinou afirmou que “sua única característica peculiar era ser mais ‘normal’ em seus hábitos e na linguagem do que a média das pessoas”.

Claro que há grandes diferenças entre Eichmann e Maduro. Mas também semelhanças. Maduro também não foi bem nos estudos e na vida profissional, e seus tropeços gramaticais continuam a divertir nas redes sociais. As “frases feitas, os clichês e a linguagem oficial” impregnam seu vocabulário. Sua banalidade é legendária. O presidente da Venezuela acaba de publicar um artigo de opinião revelador no El País. No artigo, documenta sua falsidade e deixa à vista sua imensa crueldade.

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Inicia o artigo afirmando que: “A nossa democracia é distinta de todas. Porque todas as demais são democracias formadas por e para as elites”. O fato é que a opulenta elite criada por Hugo Chávez e perpetuada por ele há duas décadas vem enriquecendo ilicitamente e exercendo o poder de maneira nada democrática. Seu controle sobre todas as instâncias é absoluto. Exemplo: entre 2004 e 2013 o Supremo Tribunal de Justiça proferiu 45.474 sentenças. Nenhuma contrária ao governo.

E ele continua: “A revolução mudou e se tornou feminista. E entre todos e todas decidimos remover a violência machista do nosso sistema de saúde e empoderar as mulheres por meio do programa nacional de parto humanizado”. Segundo a prestigiada revista médica The Lancet, a taxa de mortalidade de mães na Venezuela nos últimos anos aumentou 65% e a infantil, 30%.

Também os jovens preocupam Maduro: “Há 20 anos, antes da nossa revolução bolivariana, era normal culpar os jovens pela sua inação. (...) Mas conosco no governo as coisas mudaram”. Nisso o presidente tem razão, a situação mudou; hoje o poder de compra do salário mínimo é 94,4% menor do que em 1998. Na prática, o salário mínimo “na rua” é de pouco mais de US$ 3 por mês.

Um mês de salário mínimo “oficial” dá apenas para comprar 2 kg de frango. E nem todos conseguem ganhar isso. Uma enfermeira que trabalha por conta própria ganha o equivalente a US$ 0,06 por dia. Mas há mais: os jovens que deixam o presidente tão preocupado são as vítimas mais frequentes do crime desenfreado que sacode o país.

Naturalmente a prioridade é o povo: “É fundamental que a economia esteja a serviço do povo e não este a serviço da economia. A economia é o coração do nosso projeto revolucionário. Mas em meu coração a população está em primeiro lugar”. Essas pessoas que povoam o coração do presidente são dizimadas pela maior hiperinflação latino-americana do século 21 e pela falta de alimentos, remédios e itens básicos. Segundo o FMI, neste ano os preços subiram 13.000%. No ano passado, 64% dos venezuelanos perderam, em média, 11 kg de peso por falta de comida. Neste ano o desabastecimento é ainda pior.

O presidente ainda usa a coluna para reafirmar suas credenciais democráticas: “Para nós só existe liberdade e democracia quando há outra pessoa que pensa diferente à frente, e também um espaço onde essa pessoa pode expressas sua identidade e suas diferenças”.

Para centenas de presos políticos, esse “espaço” é uma cela imunda onde eles vivem amontoados e alguns deles são regularmente torturados, como tem sido denunciado por organizações internacionais de direitos humanos.

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Para aprofundar a democracia que reina em seu país, Maduro convocou eleições antecipadas e é um dos candidatos com mais possibilidade de vencer, embora seus eleitores estejam morrendo de fome: “Temos nos empenhado com paixão em tornar transparentes, respeitar e fazer com que sejam respeitadas as leis para as eleições de 20 de maio”. O pequeno detalhe que ele omite é que 15 governos da América Latina mais União Europeia, Estados Unidos e Canadá denunciaram como fraudulento o escrutínio e declararam que não reconhecerão seu resultado.

Maduro, o democrata, impediu os principais partidos de oposição de participarem da eleição; seus candidatos mais populares estão presos, exilados ou desqualificados. Além disso, não permite que observadores internacionais independentes monitorem o processo eleitoral. Mas a grande democracia russa mandará uma equipe de observadores. Cuba e Nicarágua também.

É bastante revelador que Maduro não tenha dedicado uma linha ao inferno que os venezuelanos estão vivendo. Nas pesquisas que avaliam a felicidade em diferentes países, a Venezuela costumava estar nos primeiros lugares. Hoje é o 102º entre os 156 pesquisados.

E uma das peculiaridades mais revoltantes do regime é a indiferença criminosa face ao sofrimento dos venezuelanos. A indolência, o desinteresse e a passividade com que Maduro trata as crises, matando diariamente cada vez mais venezuelanos, parecem não afetá-lo. Pelo contrário, nega que a Venezuela esteja sofrendo uma crise humanitária e não permite a ajuda que já teria salvado milhares de vidas. Sim, Maduro é banal. Mas também letal. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

É ESCRITOR VENEZUELANO E MEMBRO DO CARNEGIE ENDOWMENT EM WASHINGTON

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