REUTERS/Carlos Garcia Rawlins
REUTERS/Carlos Garcia Rawlins

Moisés Naim: O que Zapatero sabe

Regime venezuelano utiliza meios de comunicação como potente instrumento de propaganda

Moisés Naím, O Estado de S.Paulo

26 Fevereiro 2018 | 05h00

Como se sentiriam os espanhóis se um governo com tendência autoritária convocasse eleições antecipadas nas quais os partidos de oposição seriam proibidos de disputar, seus principais dirigentes estariam presos ou exilados e o tribunal eleitoral controlado pelo presidente que pretende ser reeleito? 

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Para ser mais específico, votar em uma eleição a ser realizada em algumas semanas em que o Partido Socialista Obrero Español (PSOE) foi proibido de participar, Pedro Sánchez está preso e Albert Rivera exilado.

Isto seria inaceitável e certamente o ex-premiê José Luiz Rodríguez Zapatero sabe. Contudo esta foi a proposta que Zapatero ofereceu à oposição venezuelana. Quando decidiram negociar sua participação nas próximas eleições com o regime de Nicolás Maduro, os partidos de oposição tinham objetivos mais concretos: realização de eleições presidenciais transparentes, livres e competitivas, libertação de todos os presos políticos, a restituição dos direitos políticos aos candidatos de oposição arbitrariamente impedidos, o reconhecimento da Assembleia Nacional eleita pelo povo e, o mais importante, a gestão da crise que está dizimando os venezuelanos. Nada foi aceito pelo governo de Maduro. 

E Zapatero sabe.

Todas as pesquisas de opinião mostram que a maioria dos venezuelanos não quer mais Maduro como presidente. E a grande maioria deseja que a saída do atual regime seja democrática e sem violência. Os venezuelanos querem votar! Mas não em eleições onde maquinações e artimanhas garantam a continuidade deste governo. O Conselho Nacional Eleitoral, em teoria um órgão independente, é o encarregado de assegurar a lisura do pleito. Mas, na prática, há quase duas décadas ele é um descarado e transparente apêndice do governo. 

E Zapatero sabe.

A grande maioria dos meios de comunicação é controlada direta ou indiretamente pelo regime, que os utiliza como um potente instrumento de propaganda e fonte dos constantes e impiedosos ataques à oposição – que não tem o direito de réplica ou de retificação das calúnias que diariamente são propagadas pelos órgãos do Estado. 

Zapatero sabe disto.

O governo não permitiu a presença de observadores internacionais neutros e qualificados em nenhuma das eleições já realizadas e nas próximas marcadas.

Isto Zapatero também sabe.

E mais ainda, os líderes da oposição mais populares, competentes e competitivos estão presos, ou foram desabilitados por juízes leais ao governo ou tiveram de se exilar.

E Zapatero sabe disto.

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Aos 28 anos, David Smolansky foi eleito prefeito de El Hatillo, região próxima de Caracas. O prefeito mais jovem na história da Venezuela realizou uma gestão coroada de sucesso e conseguiu se sobrepor às mais grosseiras manobras do governo visando o seu fracasso. A popularidade e o sucesso de Smolansky se tornaram intoleráveis para Maduro e seus sequazes. O jovem prefeito foi acusado pelo Supremo Tribunal de Justiça, outro tentáculo do governo, de não reprimir com violência os protestos pacíficos que ocorreram em sua jurisdição. Ele foi imediatamente destituído, teve ordenada sua prisão e a transferência para um presídio onde presos políticos são rotineiramente torturados. Smolansky não quis se entregar e passou 35 dias em fuga. Depois de uma peregrinação arriscada pelo sul da Venezuela, ele chegou ao Brasil atravessando a selva e, num gesto honrado, as autoridades brasileiras o acolheram. Hoje o jovem político vive no exílio e sonha em voltar a trabalhar pela Venezuela. O que ocorreu com Smolansky não é um caso isolado. Outros 12 prefeitos foram arbitrariamente destituídos e seis deles presos e agredidos.

E é claro que Zapatero tem conhecimento de tudo isto.

Recentemente o ex-chefe de governo da Espanha participou, junto com Pablo Iglesias, líder do Podemos, de um ato de apoio a Evo Morales, presidente da Bolívia. Evo está há 12 anos no poder e aspira um quarto mandato. A Constituição boliviana não contempla tal possibilidade: um presidente só pode permanecer no cargo por dois mandatos consecutivos. Em 2016, Evo convocou um referendo para eliminar essa proibição da carta constitucional. Perdeu. Mas o presidente não se deixou abater e recorreu ao Tribunal Constitucional, cujos magistrados não tiveram nenhum problema em afirmar que ele pode disputar uma vez mais a presidência da Bolívia.

A conduta de Evo não merece o aval e o aplauso de um democrata.

E Zapatero sabe disto. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É ESCRITOR VENEZUELANO E MEMBRO DO CARNEGIE ENDOWMENT EM WASHINGTON

 

 

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