Momento de incerteza

As eleições peruanas de domingo passado levaram para o segundo turno, marcado para junho, os candidatos Keiko Fujimori e Pedro Paulo Kuczynski – que representam duas alternativas absolutamente claras. Keiko, filha do ditador que cumpre uma sentença de 25 anos de prisão pelos crimes e roubos que cometeu durante os dez anos em que governou o Peru, seria legitimar aquela ditadura corrupta e sanguinária, retornar ao populismo, à divisão acirrada e à violência social da qual o país havia começado a se libertar desde que retornou à democracia em 2000. 

Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

17 Abril 2016 | 02h00

A segunda alternativa será uma consolidação da linha democrática e do progresso institucional e econômico que nos últimos 15 anos transformou o Peru em um dos países mais atrativos para o investimento externo e o que mais rápido avança na América Latina.

Nessas condições, a vitória de Pedro Pablo Kuczynski deve estar garantida se predominarem a sensatez e o discernimento. Mas nem sempre é o que ocorre e, especialmente na América Latina, em certos períodos eleitorais prevalecem os abusos e a paixão demagógica, como sabem muito bem os amigos venezuelanos que em cinco ocasiões votaram pelo “socialismo do século 21” e agora não conseguem se libertar de uma quase ditadura que os arruinou economicamente e os faz viver asfixiados e com medo.

Retrocesso. O fujimorismo conta com grandes recursos econômicos – somente US$ 180 milhões foram recuperados pelo Peru dos US$ 6 bilhões roubados naqueles anos – e seus cartazes de propaganda tomaram conta do país, ao mesmo tempo em que a mídia que ele controla procura consolidar a ficção segundo a qual o ex-ditador derrotou o Sendero Luminoso, enviou seu líder Abimael Guzmán para o cárcere e tirou o país da devoradora inflação que o estava destruindo. Puro mito. 

Na verdade, a ditadura combateu o terror com o terror, assassinando, torturando e enchendo as prisões de pessoas inocentes. Além da desenfreada corrupção com a qual a equipe dirigente de Fujimori enriqueceu, envergonhou o país e o supurou até colocá-lo à beira do abismo. Por isso, Fujimori fugiu do país – caso único na história peruana – e enviou do exterior, por fax, sua renúncia à presidência.

A isso querem retornar os peruanos que deram a Keiko Fujimori 40% dos votos no primeiro turno e uma maioria parlamentar? Porque, embora tenha prometido que não ocorrerá novamente um “cinco de abril” – dia do autogolpe com que Fujimori pôs fim à democracia - é óbvio que, se Keiko chegar à presidência, cedo ou tarde serão abertas as prisões e os ladrões e assassinos fujimoristas, a começar pelo seu pai, sairão dos calabouços e se apropriarão novamente do poder. 

Causa arrepios imaginar a violência social que tudo isso produzirá, com a consequente paralisia econômica, a retração dos investimentos e a gangrena populista ressuscitando os demônios da inflação e da paralisação das quais nos libertamos nos últimos três mandatos presidenciais.

Assim, é importante uma grande mobilização popular de todas as forças democráticas do espectro político, sem nenhuma exclusão, para derrotar o fujimorismo e levar Kuczynski à presidência. E, sobretudo, que as dezenas de milhares de peruanos que se abstiveram de votar, ou anularam seus votos no primeiro turno, recuperem a confiança e acreditem que existe esperança. Kuczynski é uma pessoa de credenciais políticas impecáveis, que só prestou serviços para governos legítimos e, em todos os casos, com competência e honradez.

Sua história tem algo de novelesca. Foi uma ditadura, a do general Velasco, que o obrigou a se exilar quando ainda era um jovem funcionário do Banco Central de Reserva. Isso lhe permitiu fazer uma meteórica carreira no mundo internacional das finanças, chegando a ser presidente do First Boston. Embora numa posição tão alta, ele retornou ao Peru assim que a democracia se reinstalou no país. Poucos dirigentes políticos conhecem melhor que ele a problemática peruana, que estudou com devoção, e poucos têm ideias mais práticas e funcionais para enfrentar suas carências e necessidades. Por outro lado, não existe nenhum político peruano com mais prestígio e mais conhecido do que ele no cenário internacional.

Por isso, desde que decidiu se lançar na árdua disputa eleitoral, foi cercado por um entusiasmado grupo de jovens empenhados em tornar o Peru um país moderno e próspero, uma verdadeira democracia com oportunidades para todos. Preenchendo com seu entusiasmo a falta de estruturas partidárias e recursos, esse grupo conseguiu que o candidato obtivesse o segundo lugar no primeiro turno que deverá permitir a ele vencer as eleições de junho, salvando o Peru da catástrofe que seria o retorno do fujimorismo ao poder.

Região. Uma das grandes desgraças da América Latina é o fato de cada governo sempre começar do zero, não levando em conta tudo o que foi realizado pelo predecessor. Essa falta de continuidade nos tem feito viver na instabilidade e na precariedade porque os esforços são frustrados quando acabam de começar. Esse hábito maldito foi rompido para a sorte do Peru nos últimos anos. Desde o fim da ditadura, em 2000, o país teve quatro governos democráticos – um deles de transição – de linhas políticas diferentes que, apesar disso, respeitaram a legalidade democrática e uma política econômica de mercado e de estímulo ao investimento que nos trouxe enormes benefícios. A extrema pobreza diminuiu, a classe média cresceu vigorosamente, o investimento estrangeiro se manteve em níveis elevados e, com as todas as limitações impostas pelo subdesenvolvimento, o Peru foi progredindo graças à liberdade e ao amplo consenso que, pela primeira vez, caracterizaram a vida política peruana nos últimos quinze anos.

Mas, de novo, tudo isso está sob ameaça no atual processo eleitoral e corremos o risco de reincidir – é o que ocorrerá se uma maioria de eleitores, tomada pelo desvario político, levar Keiko Fujimori ao poder.

Felizmente, a História não está escrita, não segue caminhos predeterminados. Homens e mulheres escrevem diariamente a História por meio de suas ações e decisões, e podem estabelecer a direção e o ritmo que melhor lhes pareçam. Nós, peruanos, nos equivocamos muitas vezes em nossa história e, por isso, esse país que foi justo e grande um dia acabou empobrecendo e se decompondo como poucos na América Latina. Há 15 anos, isso começou a mudar de maneira notável. 

Surgiram consensos muito amplos no tocante à economia e à política que propiciaram ao país primeiramente a estabilidade e depois um impulso progressista espetacular, a ponto de, pela primeira vez, ouvir nos últimos anos no exterior elogios e felicitações pelo que vem sucedendo no Peru.

Depende apenas de nós que este momento de incerteza que estamos vivendo não seja prenúncio de uma noite sinistra e anacrônica, mas uma antecipação do amanhecer, com sua suavidade e sua luz clara.

/ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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