Momento exige diálogo entre culturas

Nas muitas viagens que tenho feito pelo mundo nos últimos dois anos representando a diplomacia pública americana, tenho encontrado freqüentemente pessoas cuja fé as inspira a fazer coisas grandiosas. Encontrei médicos muçulmano-americanos que viajaram ao Paquistão para atender as vítimas do terremoto naquele país; freiras católicas que ajudavam famílias desabrigadas após os deslizamentos de terra na América Central; voluntários de muitas nações que ajudavam no combate à aids ou à malária na África ou a construir escolas no Afeganistão. Vi in loco que há pessoas de boa fé em todas as religiões e culturas.Nos Estados Unidos, pessoas de diferentes credos - e mesmo ateus - vivem lado a lado e tentam respeitar as posições uns dos outros. Não somos perfeitos, e a religião é por vezes causa de divisões, mas o respeito pela diversidade religiosa é nossa meta - e, desde o 11 de Setembro, muitos americanos cristãos, judeus e muçulmanos se propuseram a tentar se conhecer melhor.Descobri que pessoas de todas as religiões têm muito em comum. Como cristã, meus principais mandamentos são amar a Deus e ao próximo; meus amigos muçulmanos e judeus dizem que o mesmo é verdade para eles. Neste outono (no Hemisfério Norte, primavera no Sul), a carta aberta de 138 acadêmicos muçulmanos a líderes cristãos expressava exatamente o mesmo pensamento. Dizia que o amor a Deus e o amor ao próximo - "os dois mandamentos mais importantes" - são "uma área de pontos em comum e um elo entre o Alcorão, a Torá e o Novo Testamento".Embora existam diferenças teológicas significativas, no final das contas acredito que a grande maioria das pessoas de todas as religiões e culturas almeja coisas semelhantes para elas e suas famílias - educação e assistência médica, vizinhança segura, bom emprego -, e a maioria das pessoas quer que sua vida faça a diferença, para deixar nosso mundo um pouco melhor que antes. Esses sonhos não são exclusivos de um país ou povo; são comuns a todos os seres humanos. A despeito de diferenças de idiomas, ou culturais, ou da cor da pele, há muito mais coisas a nos unir do que a nos separar.PERCEPÇÕES EQUIVOCADASEm minhas conversas pelo mundo descobri duas grandes percepções equivocadas. Primeiro, em muitos países com maioria muçulmana, as pessoas receiam ser alvo da guerra contra o terrorismo. Quero assegurar aos nossos amigos do mundo todo que não é esse o caso. A maioria dos americanos reconhece que os terroristas não representam - mas, ao contrário, deturpam - as crenças com seus atos de barbárie. Muitos dos cidadãos americanos têm raízes no mundo árabe; outros têm origem em praticamente todas as culturas e religiões. O Islã também é parte do Ocidente e parte dos Estados Unidos - vários milhões de muçulmano-americanos vivem, trabalham e praticam seu culto livremente nos Estados Unidos.O segundo grande equívoco vem dos meus compatriotas americanos. Ao contrário da percepção comum, os muçulmanos se pronunciam contra a violência terrorista - com freqüência e firmeza. O presidente Hamid Karzai, do Afeganistão, condenou os atentados suicidas a bomba como algo contrário ao Islã e diz que os terroristas "enganam as crianças" quando as recrutam. O secretário-geral da Organização da Conferência Islâmica é totalmente contra os atos terroristas. Na Arábia Saudita, o xeque Salman al-Awdah, líder do movimento reformista Sahwa, enviou carta aberta condenando Osama bin Laden por assassinar inocentes: "Esta religião, que protege a santidade do sangue - até de pássaros e animais -, nunca aprovaria a matança de inocentes por nenhuma razão ou motivo."É chegada a hora de as pessoas boas de todos os credos se unirem para afirmar claramente que suicidar-se para matar outras pessoas é errado e é questão de vergonha - nunca de honra. Existem muitas queixas legítimas no nosso mundo, mas nenhuma pode justificar o assassinato de inocentes.Os Estados Unidos querem participar de diálogos inter-religiosos. Estamos trabalhando para que as muitas vozes que clamam contra a violência terrorista e por maior entendimento entre as religiões sejam ouvidas. Estamos incentivando conversações entre culturas. Em um novo programa, denominado Diálogo Cidadão, enviamos cidadãos muçulmano-americanos pelo mundo todo para promover entendimento com as pessoas das comunidades muçulmanas. Patrocinamos programas de verão para jovens, ensinando respeito pela diversidade. Enviamos músicos para promover a tolerância e mostrar que as diferenças podem enriquecer em vez de dividir.Somos todos parte de um mundo cada vez mais interligado em que cada um de nós - independentemente de nossa cultura ou comunidade religiosa - precisa trabalhar pela paz, pela vida e pela esperança. Como diz a carta aberta de 138 acadêmicos muçulmanos, "nosso futuro comum está em jogo", e devemos, "sinceramente, fazer todos os esforços para construir a paz e conviver em harmonia".Neste ano, o mundo celebra o 800º aniversário do nascimento de Rumi, grande poeta sufi, que escreveu: "Quando alguém perguntar o que se há de fazer, acenda a vela em suas mãos." Por meio do diálogo, estamos acendendo velas - e espero que suas luzes brilhem em todo o mundo. *Karen P. Hughes é subsecretária de Estado dos EUA para Diplomacia e Assuntos Públicos

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.