Momentos de medo e terror na Tunísia

Não basta ter enxotado um ditador do poder, é preciso ficar atento para que a revolução[br]tunisiana não seja roubada pelos mesmos ladrões e assassinos que governavam o país

Kamel Riahi, The New York Times, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2011 | 00h00

Sexta-feira, 14 de janeiro, centro de Túnis. Nas ruas, gritamos: "Não!". Um milhão de vozes contra a ditadura do presidente Zine el-Abidine Ben Ali, que durava 23 anos. Gás lacrimogêneo, balas e morte esvoaçam sobre nós. Fomos encurralados na estação de metrô Barcelona, uma das principais da cidade, e atacados. Eu me protegi com um lenço e corri para a Avenida Bourguiba, que os turistas chamam de Campos Elísios tunisianos, onde fomos recebidos com rifles e cassetetes.

Quase sem fôlego, nos esquivamos de balas por mais alguns quarteirões até tropeçarmos em um paredão de policiais à paisana. Eles nos obrigaram a entrar em uma estação de metrô e nos colocaram nos vagões dos trens. Um velho que havia saído de casa para comprar pão e fora apanhado na manifestação está ofegante. Rasgo meu lenço em dois e dou-lhe a metade. Gostaria de ter lhe perguntado o que ele pensa dos protestos, mas todos estavam lutando contra as bombas de gás.

Naquela noite, as milícias saíram. Do meu prédio, ouvimos balas. Minha mulher tremia. Notícias sobre ataques e estupros começaram a ser transmitidas pelo rádio. Ela me pergunta, enquanto olha para Haroun, nosso filho de 1 ano. "O que faremos se nos atacarem? Por favor, proteja o Haroun." Eu respondo: "Fique quieta, por favor". Saio para ver se os moradores podem se revezar vigiando o prédio. Apanho uma pequena faca de cozinha e uma barra de metal. Toco a campainha do vizinhos. Ou não estão em casa ou estão em pânico.

Grito do pé da escada do prédio: "Vizinhos, desçam e vamos nos preparar". Nenhuma resposta. Sei que o edifício está meio vazio e o portão da frente está destrancado. Pior, no último andar mora um homem suspeito de pertencer a uma milícia leal a Ben Ali.

Volto ao nosso apartamento. Tento acalmar minha mulher, mas Haroun é uma criança barulhenta e não podemos explicar a ele o estado de emergência. Meu irmão, que está no Exército, telefona e pergunta como estamos. Ele não consegue nos tranquilizar.

A TV estava me deixando nervoso. Outro político anuncia que está assumindo o poder, e diz: "Por Deus, protejam-se". Estou em pânico. Vivi um dia na violenta Argélia. Decidi aproveitar minha experiência e peguei um machado. Tomei um lugar nos degraus da entrada do prédio.

Ouço dizer que as milícias estão circulando em ambulâncias. De repente, o país se tornou o cenário de um filme de gângsteres de Hollywood. Seu povo, pacato e esclarecido, são apenas figurantes. Ouço tiros e me escondo atrás de um muro. Em seguida, o barulho de um helicóptero. Volto ao apartamento para ver minha mulher, que está petrificada. Haroun dança alegremente.

Tento tranquilizá-la, dizendo que o Exército está nos protegendo. Volto a meu posto de sentinela e decido me refugiar no Alcorão. No entanto, esqueço o trecho de abertura, a "Fatiha", com suas orações pedindo orientação divina. Tropeço nas linhas, misturando a ordem. Penso em escrever e procuro um lápis no bolso do casaco. Não trago nenhum papel comigo além da caderneta de endereços, por isso a abro no escuro, querendo anotar tudo.

Terror. De repente, balas ricocheteiam ao meu redor. Eu me jogo no chão. Espero até ouvir novamente o helicóptero antes de voltar para dentro, tranquilizar minha família e recarregar minhas energias com o entusiasmo de Haroun. Penso em mim como o protagonista do romance Homem no Escuro, de Paul Auster, que descreve sua situação da seguinte maneira: "Estou sozinho no escuro, fazendo girar o mundo em minha cabeça". Agarro a barra de ferro para defender meu lar e meu sonho.

No sábado de manhã, aventuro-me a sair à rua para encontrar nossa vizinhança acompanhada de rostos pouco familiares. O shopping center perto de minha casa foi saqueado. Vou com minha mulher e meu filho para a casa de um parente. Com paus e pedras, assumimos o controle do bairro. Passamos a noite enxotando estranhos e carros desconhecidos. Pela manhã, perambulamos pela cidade atrás de pão e leite para nossos filhos. Não encontramos nada.

Gradualmente, os habitantes de Túnis vão se acostumando com o estado de emergência, com o toque de recolher e começam a desfrutar do tempo livre, especialmente porque agora todos podem falar livremente, xingar e ridicularizar abertamente Ben Ali e sua corrupta família.

Na segunda-feira, nos dizem que foi formado um novo governo de "unidade". Quando os tunisianos veem que alguns membros do velho regime foram nomeados para postos no gabinete, surge uma nova onda de distúrbios e as pessoas começam a dizer que a revolução lhes foi roubada .

Na terça-feira, os jovens começaram novamente a ganhar as ruas, pedindo a dissolução do partido de Ben Ali, a Reunião Democrática Constitucional (RCD), que vem governando a Tunísia desde sua independência, em 1956.

Alguns dizem que isso pode ser apenas uma repetição dos expurgos de membros do Partido Baath, de Saddam Hussein, no Iraque, que contribuíram para a insurgência iraquiana. Apesar de concordar que pode ser impossível dissolver o RCD sem mergulhar o país no caos, acho que não temos outra escolha a não ser tentar.

Há manifestações também nos escritórios do maior grupo de oposição, acusado de cumplicidade com o antigo regime no novo governo. No fim do dia, pelo menos cinco ministros haviam se demitido e ninguém sabe o que virá em seguida.

Quanto a mim, sinto uma felicidade extrema por poder escrever livremente. Um ano e meio atrás, um de meus romances, que descreve a vida sob a opressão, foi encenado como uma peça no centro cultural de Túnis. As pessoas envolvidas foram constantemente monitoradas pela polícia. Nenhum dos jornalistas presentes escreveu resenhas. É por isso que apoio a revolução e, como tantos jovens, temo que ela nos seja roubada pelos traidores, ladrões e assassinos que nos governaram por tanto tempo. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É ESCRITOR TUNISIANO

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