Monarquia adapta-se aos novos tempos

Símbolos nacionais, reis e rainhas europeus sobrevivem à modernidade

Ruth Costas, O Estadao de S.Paulo

17 de novembro de 2007 | 00h00

O incidente diplomático criado pelo desabafo do rei Juan Carlos de Bourbon, da Espanha, na 17.ª Cúpula Ibero-Americana, reacendeu um debate cada vez mais freqüente na Europa: o papel das monarquias nas modernas sociedades da região. Ao gritar, irritado, para que o presidente venezuelano Hugo Chávez se calasse, Juan Carlos acabou interferindo nas relações entre os dois países - e atuação política é uma prática há algum tempo vetada à maior parte dos reis e rainhas europeus. "A monarquia está adquirindo um protagonismo que não facilita o trabalho de moderação atribuído a ela pelo sistema constitucional", criticou, em editorial, o jornal espanhol El País. É surpreendente que uma instituição com raízes na Idade Média e fundamentada na transmissão hereditária tenha conseguido sobreviver em tão boa forma numa época em que a importância das eleições é incontestável. Se a ordem hoje é cortar gastos do Estado, gastar milhões para manter a casa real britânica ou espanhola parece pouco lógico. Da mesma forma, em países onde o igualitarismo é quase uma obsessão, como Dinamarca, Bélgica e Suécia, dar a uma família um status privilegiado não faz sentido à primeira vista.No entanto, a maior parte das monarquias européias não só está conseguindo conviver com a modernidade, como encontrar seu lugar nela. Os reis da região não têm mais poderes para governar de fato - ocupam um cargo cerimonial, são apenas chefes de Estado -, mas numa época de fronteiras diluídas, eles se tornaram valiosos símbolos de identidade nacional. "Em geral as monarquias são populares e não há indícios de que estejam seriamente ameaçadas", disse ao Estado o historiador britânico Alan Sked, da London School of Economics. "Há uma pressão crescente sobre a realeza, mas até agora ela tem conseguindo adaptar-se aos novos tempos." PRIVILÉGIOSAs contestações são de fato mais freqüentes. Em julho, a mídia espanhola deu início uma acalorada discussão sobre os privilégios da casa real e os limites da liberdade de expressão. O pivô da polêmica foi a apreensão da revista Jueves das bancas, depois que ela publicou uma caricatura do príncipe Felipe e da princesa Letícia fazendo sexo. O desenho, uma sátira sobre os incentivos do governo espanhol para aumentar a taxa de natalidade, foi considerado uma "injúria à família real" pelo procurador-geral. Na última terça-feira, os cartunistas foram condenados a uma multa de US$ 4,5 mil cada.Há dois meses, grupos separatistas da Catalunha queimaram fotos de Juan Carlos e da rainha Sofia em protestos antimonarquistas, e o comentarista de uma rádio ligada à Igreja chegou a pedir que o monarca abdicasse. O rei, até então famoso por sua discrição, saiu em defesa do regime. "A monarquia ajudou a garantir o mais longo período de estabilidade e prosperidade que a Espanha já experimentou", disse, referindo-se ao seu papel na transição democrática. A monarquia foi derrubada na Espanha dos anos 30, mas quatro décadas depois o ditador Francisco Franco, na falta de um sucessor, designou Juan Carlos para tomar as rédeas do Estado após a sua morte. De 1975 a 1978, o rei ajudou a conduzir o país em direção a uma democracia estável, costurando consensos entre a ultradireita, forças pró-reforma e separatistas. Quem ainda duvidava da legitimidade do rei convenceu-se em 1981, quando ele frustrou um levante militar desautorizando os golpistas na TV. "O rei é uma figura muito popular porque passou a ser identificado com a Espanha moderna, livre e democrática", diz Rafael Cruz Martínez, professor de história da Universidade Complutense de Madri. "No entanto, não há como saber se o sistema de monarquia parlamentarista sobreviveria a Juan Carlos I."SOLIDEZNeste sentido, a monarquia britânica, como instituição, dá mostras de ser mais sólida que a espanhola. "A família real da Grã-Bretanha já conseguiu passar por inúmeros escândalos e a morte da Diana sem que surgissem movimentos de contestação sérios", diz o historiador Justin Champion, da Universidade de Londres. Uma cerimônia real ainda é capaz de levar multidões às ruas e os príncipes estão aprendendo como tirar proveito da superexposição na mídia. Pesquisas recentes mostram que apenas 10% dos britânicos de 16 a 24 anos acham que a monarquia tem importância em sua vida, mas a indiferença das novas gerações parece não abalar a legitimidade do regime. A realeza, como o fog londrino, simplesmente é algo que "sempre esteve lá". "Como britânico, eu não tenho nenhuma dificuldade em respeitar a rainha, desde que não tenha de pensar muito nela", resumiu certa vez o articulista Geoffrey Wheatcroft. Entre os temas que causam polêmica estão os gastos e privilégios da casa real. Sob pressão, a rainha Elizabeth II começou a pagar impostos em 1993 e desde 2001 publica a lista de seus dispêndios oficiais. "O custo da monarquia hoje é 7% menor do que há cinco anos", garante o contador da rainha, Alain Reid. Ainda assim, supera os US$ 70 milhões anuais. Na Espanha é de US$ 12 milhões, e na Suécia, 16 milhões. Entre as monarquias que desempenham hoje um papel indispensável talvez o melhor exemplo seja o belga. Não que o rei Albert II possa interferir no governo - ele também é apenas chefe de Estado -, mas sua importância como símbolo da unidade nacional é incontestável. Dividida entre flamengos, que falam holandês, e valões, que falam francês, a Bélgica está há mais de 160 dias sem governo porque as facções políticas que representam esses grupos não conseguem se entender. Os dois lados reclamam da discriminação. Médicos valões recusam-se a tratar pacientes flamengos e vice-versa. Recentemente o primeiro-ministro belga, Yves Leterme, listou as únicas coisas que os belgas têm em comum: um time de futebol, algumas marcas de cerveja e o rei.

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