Monarquias árabes se unem contra revoluções

Liderado pelos sauditas, conselho que reúne 5 autocracias do Golfo Pérsico convida Marrocos e Jordânia para criar frente contra a primavera árabe

Roberto Simon, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2011 | 00h00

Além das multidões que tomaram as ruas, a primavera árabe trouxe à tona um novo ator político no Norte da África e no Oriente Médio. O Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) - até o ano passado uma discreta união aduaneira de cinco monarquias da Península Arábica - tornou-se um dos principais atores nas crises que sucederam à queda do governo na Tunísia.

Agora, a organização pretende incorporar o Marrocos e a Jordânia, convertendo-se no clube de todas as monarquias árabes.

Criado em 1981 sob inspiração do bloco europeu, o CCG buscava integrar as economias de Catar, Emirados Árabes, Omã, Bahrein e Arábia Saudita, a líder do grupo. Esforços de união política, como uma proposta de integração militar, quase não surtiram efeito. Até que veio a queda da ditadura na Tunísia.

Primeiro, os sauditas receberam e concederam asilo ao ditador tunisiano Zine el-Abidine Ben Ali, irritados com a "omissão" dos EUA diante da oposição interna ao aliado. Quando foi a vez dos egípcios saírem às ruas, o clube das monarquias fez intensa pressão para o presidente Barack Obama não jogar o aliado histórico ao mar. Fracassaram.

Em seguida, o Iêmen - vizinho dos membros do CCG, mas única república da península - explodiu em uma convulsão muito mais violenta do que os distúrbios tunisiano e egípcio. Juntas, as monarquias articularam um plano de paz, que previa a renúncia do ditador Ali Abdullah Saleh em benefício de seu vice em coalizão com a oposição. Saleh, atualmente hospitalizado na Arábia Saudita, de início recusou a proposta, mas, na semana passada, voltou a dar sinais de recuo.

Na Líbia, governada pelo inimigo jurado Muamar Kadafi, que já tentou matar o rei saudita, o CCG articulou a imposição de uma zona de exclusão aérea e o Catar enviou caças para ajudar na invasão.

O grupo, porém, viu a maré de revolta chegar ao Bahrein - um dos membros do clube -, com a maioria xiita protestando contra a monarquia sunita. Em nome de um acordo de segurança coletiva, as monarquias enviaram tropas para a ilha vizinha à Arábia Saudita e silenciaram os manifestantes à força.

Na semana passada, com a crise na Síria, outra posição em conjunto foi tomada: Kuwait, Bahrein e Catar retiraram seus embaixadores de Damasco.

"Foi o fim de um pacto, segundo o qual Bashar Assad não falaria da repressão no Bahrein e o CCG não diria nada sobre a Síria", disse ao Estado Mouin Rabbani, editor do Middle East Report, que vive na Jordânia. Para ele, o clube das monarquias tem um objetivo: manter a todo custo o status quo. A tática, para isso, parece ter mudado.

Há 20 anos, a Jordânia, prima pobre das monarquias do Golfo, vinha tentando entrar no grupo, mas tinha sua candidatura recusada. Esta semana, o governo jordaniano e o CCG confirmaram que Amã está prestes a aderir ao bloco, assim como a outra única monarquia do mundo árabe que estava de fora, o Marrocos.

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