Monges budistas desafiam ditadura em Mianmá

Civis e sacerdotes continuam protestos pela queda do regime militar; governo ameaça intervir em manifestação

BBC Brasil, BBC

25 de setembro de 2007 | 08h02

Dezenas de milhares de monges budistas e civis voltaram nesta terça-feira, 25, às ruas de Rangum, a capital de Mianmá (antiga Birmânia), em protesto contra o governo militar, desafiando ordens do Exército e exigindo a sua retirada do governo.  Veja também:  Entenda a crise e o protesto dos monges Brasileiro relator da ONU pede ajuda internacionalEm discurso na ONU, Bush anuncia sanções ao paísOs manifestantes se reuniram perto da Pagoda Shwedagon, um dos templos mais importantes do país, onde estavam estacionados veículos militares, e seguiram pelas ruas da principal cidade do país.Soldados patrulhavam as ruas e, através de alto-falantes, ameaçavam os moradores de que os protestos poderiam ser "dispersos pela força militar". A mídia oficial pediu aos monges que ponham fim aos protestos e não se metam em política, mas a organização clandestina por trás das manifestações afirma que o movimento vai continuar.Na segunda-feira houve protestos em 25 cidades em Mianmá, com dezenas de milhares de pessoas marchando nas ruas de Rangum. Estudantes também estão participando abertamente dos protestos desta terça-feira, em vez de simplesmente formarem uma corrente, como na segunda-feira.A junta militar que governa o país, e que em 1988 reprimiu violentamente os protestos causando a morte de cerca de 3 mil pessoas, finalmente quebrou o silêncio sobre as manifestações iniciadas na semana passada e declarou que está pronta para "adotar ações" contra os monges. Oito caminhões transportando tropas de choque dirigiram-se para o centro da cidade, após mais um dia de protestos contra a junta militar que governa Mianmar ter acabado sem incidentes. A polícia, carregando escudos, cassetetes e rifles, foi mobilizada para uma parte da cidade perto do ponto final das maiores marchas no país em quase 20 anos.  Sanções americanasTambém nesta terça-feira, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, deverá anunciar novas sanções contra o governo de Mianmá, afirmou a Casa Branca.O anúncio deverá ser feito durante o discurso do presidente americano na Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. Segundo a Casa Branca, Bush está inclinado a impor restrições financeiras e cancelar o visto americano dos membros do governo do país asiático.De acordo com o correspondente da BBC Jonathan Beale, em Washington, os Estados Unidos já deixaram claro que estão se preparando para tomar medidas unilaterais contra a junta militar que domina o governo.A decisão do governo americano foi tomada depois de oito dias consecutivos de protestos populares liderados por monges budistas contra o regime.Segundo Beale, Washington espera que suas ações levem outras nações a agir e incentivem os protestos nas ruas do país.A Aliança de todos os Monges Budistas da Birmânia, que lidera os protestos, prometeu manter as manifestações até que "a ditadura militar seja varrida da terra".ReaçõesOs protestos começaram em 19 de agosto, motivados pelas altas dos preços dos combustíveis decretadas pelo governo, que dispararam os preços de bens da cesta básica. As tensões agravaram-se no início de setembro, quando um grupo de monges foi agredido por soldados da tropa de choque durante uma manifestação pacífica.A junta já afirmou que está pronta para agir contra os monges. Nesta segunda-feira, o ministro de Religião de Mianmá, general Thura Myint Maung, alertou os manifestantes para que "não quebrem as regras e as leis budistas".Maung disse que os protestos são promovidos por "elementos destrutivos" que se opõem à paz no país. A TV estatal disse que as manifestações são fomentadas por comunistas e grupos de mídia e estudantes exilados. Os monges budistas são venerados em Mianmar e, segundo correspondentes, qualquer medida da junta militar para sufocar as manifestações poderia provocar mais protestos. Mesmo assim, há temores de que possa se repetir o episódio de violência de 1988, quando as últimas manifestações pró-democracia realizadas em Mianmar foram reprimidas violentamente pela junta militar, em confrontos que deixaram cerca de 3 mil mortos.De acordo com o correspondente da BBC na Ásia Andrew Harding, o governo de Mianmá deverá enfrentar grande pressão de seu vizinho mais próximo, a China, para evitar derramamento de sangue e instabilidade.A União Européia já pediu à junta militar que utilize "máxima prudência" ao lidar com os protestos e que aproveite a oportunidade para "iniciar um processo de real reforma política".O Dalai Lama, líder espiritual tibetano que vive exilado na Índia, também manifestou apoio aos monges de Mianmá em sua busca por "liberdade e democracia".O embaixador britânico Mianmá, Mark Canning, disse que os líderes do país estão agora em terreno desconhecido, mas expressou preocupação com uma possível reação do governo.

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