Monitorar suspeitos de terrorismo é grande desafio

Agências de inteligência não têm condições de controlar as cerca de 3 mil pessoas na Grã-Bretanha que representam ameaça terrorista potencial

Rick Noack, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

16 Setembro 2017 | 05h00

Algumas críticas feitas por Donald Trump após o ataque de ontem em Londres se justificam até certo ponto. Após três anos de atentados na Europa em que os serviços de segurança com frequência têm dificuldade para explicar como os terroristas não foram detectados, a Grã-Bretanha luta hoje com um problema diferente: ao menos três dos cinco envolvidos em atentados no país este ano eram conhecidos da polícia.

E, do mesmo modo, os pregadores do ódio há muito tempo testam os limites das leis de liberdade de expressão britânicas, radicalizando indivíduos por todo o país e cometendo crimes não passíveis de punição segundo leis britânicas. Pondo fim ao seu enfoque do esperar para ver, Londres recentemente adotou medidas severas contra os pregadores de ódio, estratégia que se ajusta à demanda de Trump para que os terroristas sejam tratados com rigor. 

Ao menos retoricamente, Theresa May já tinha exigido medidas mais duras no campo do contraterrorismo antes da eleição de junho. Mas muitos especialistas concordam que as propostas mais amplas de Trump dificilmente tornariam o país mais seguro. Na verdade, as autoridades policiais britânicas já são muito mais proativas do que em muitos outros países e May tem pouco espaço de manobra para ampliar esses poderes.

Leis de grande alcance já permitem às autoridades indiciar ou monitorar suspeitos de uma maneira que seria impossível em muitos países da Europa. Mas os desafios têm menos a ver com a falta de opções legais e mais com a capacidade operacional.

Monitorar um suspeito 24 horas por dia exige em média 20 policiais. Portanto, as agências de inteligência não têm condições de controlar as cerca de 3 mil pessoas na Grã-Bretanha que representam ameaça terrorista potencial. Seria preciso a metade dos policiais do país para cumprir a tarefa.

Na Grã-Bretanha, a impossibilidade de rastrear todos os suspeitos já levou a demandas no sentido de uma nova lista de prioridades para selecionar os indivíduos que oferecem maior risco. E também para prender mais suspeitos antes de eles recorrerem à violência.

Medidas duras contra extremistas não violentos não tiveram resultado satisfatório em outros países. “É uma estratégia que os franceses adotaram com pouco sucesso, já que provocou a hostilidade das comunidades e levou a uma situação em que os membros dessas comunidades rejeitam oferecer informações cruciais às autoridades”, diz Frank Foley, professor no King’s College.

Os britânicos afirmam que vários ataques foram evitados porque membros da comunidade muçulmana alertaram as autoridades em tempo, em parte também porque foram criados programas para melhorar as relações entre as comunidades e a polícia. Na França, essas relações ficaram muito tensas após autoridades privilegiarem a repressão de suspeitos em lugar de incluir as comunidades na luta contra o terrorismo.

Apesar dos comentários de Trump sugerindo que não há foco suficiente até agora na radicalização pela internet, há anos a Grã-Bretanha tem procurado conter a ideologia extremista, financiando iniciativas de contrapropaganda. Analistas não creem que o gasto maior nesses programas tenha grande impacto.

“No caso dos ataques mais recentes, eles não tiveram nada a ver com a internet. Muitos dos envolvidos se radicalizaram em interações diretas”, disse Peter Neumann, diretor do Centro Internacional de Estudos de Radicalização. Estudo recente na Alemanha concluiu que a propaganda ou os chats têm um papel menor na radicalização de indivíduos do que as interações diretas entre as pessoas, quase sempre promovidas por amigos ou em círculos sociais. Outros estudos, em diferentes países da Europa, incluindo a Grã-Bretanha, chegaram à mesma conclusão, de que o impacto da propaganda online pode não ser tão grande quando se supõe.

A decisão de Trump de usar o ataque para reiterar sua demanda de uma proibição mais ampla de viagens aos EUA causou fortes reações na mídia social. Os EUA possuem regras de entrada de refugiados consideradas as mais severas do mundo, mas na Grã-Bretanha a grande maioria dos envolvidos em atentados recentes nasceu ou cresceu no Reino Unido.

A questão mais importante é se qualquer nova estratégia aumentará a segurança num país que sempre foi considerado um modelo na prevenção de atentados. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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