Montesinos, uma personagem sinistra

Vladimiro Montesinos Torres, considerado a personagem mais sinistra e corrupta da história política peruana, dominou totalmente os poderes político e militar durante o regime de dez anos do destituído presidente Alberto Fujimori. Montesinos é acusado de vários delitos, entre eles o de lesa-humanidade, e muitos de seus ex-sócios o apontam como uma figura disposta a matar para alcançar seus objetivos pessoais e políticos, "marcados quase sempre pela corrupção e o enriquecimento ilícito". A fortuna amealhada ilicitamente por Montesinos, segundo denunciou na quarta-feira o procurador-geral da Nação, Nelly Calderón, chega a cerca de US$ 300 milhões, apesar de se suspeitar que ainda existam muitas contas suas ainda não descobertas em bancos e centros financeiros mundiais. Este personagem é considerado a cabeça da maior rede de corrupção de que se tem notícia na história peruana e líder de uma organização criminosa que se apropriou de nada menos do que US$ 4 bilhões destinados no orçamento público para a compra de armas nos últimos anos. As acusações do Ministério Público contra Montesinos envolvem crimes de lesa-humanidade, tráfico de armas, tráfico de influência, lavagem de dinheiro, narcotráfico, peculato, chantagem e extorsão. Montesinos tinha pessoalmente a seu dispor uma guarda formada por mais de 3.000 homens, das forças armadas e polícia nacional. Em meio à crise política ocorrida após mais uma reeleição de Fujimori em julho de 2000, Montesinos ameaçou dar um golpe de Estado caso tentassem tirar-lhe o poder que havia acumulado e administrado por anos sob o amparo e virtual impunidade que lhe outorgava o próprio Fujimori. Um vídeo de Montesinos subornando com dinheiro o congressista Alberto Kouri converteu-se em seu "calcanhar de Aquiles" - a arma letal que ele mesmo usava para neutralizar muitas personalidades. Ele filmou e gravou banqueiros, chefes militares, congressistas, jornalistas e donos de meios de comunicação, magistrados supremos, empresários nacionais e estrangeiros, diplomáticos, e usava as fitas para chantageá-los. Ex-agente da CIA no Peru, e provavelmente colaborador da agência americana no passado em outros países da região, Montesinos chegou a legislar, executar e até mesmo colocar em apuros o próprio Fujimori, a quem filmava secretamente. Montesinos, de 54 anos, guarda em seu poder muitos desses vídeos que comprometeriam Fujimori em atos de corrupção, segundo rumores não desmentidos e que foram confirmados por testemunhos de pessoas muito próximas aos dois personagens. O ex-assessor de Fujimori fugiu do Peru em 29 de outubro de 2000 a bordo de um veleiro que o levou às Ilhas Galápagos, Equador, e dalí até a praias da Costa Rica. Logo depois ele entrou clandestinamente na Venezuela, onde foi capturado na noite deste sábadopela polícia política. O ex-capitão do Exército, expulso por desobediência ao superior e até por traição à pátria em 1976, Montesinos formou-se em direito e durante anos defendeu conhecidos traficantes de drogas da Colômbia e do Peru. Quando Fujimori venceu as eleições de 1990, Montesinos se transformou em seu assessor mais influente e poderoso. Poucos depois, Montesinos ajudou a arquitetar o famoso "autogolpe" de Estado de 5 de abril de 1992. A partir de então, Montesinos foi adquirindo mais poder nos campos político e militar até controlar os aspectos mais importantes e estratégicos da estrutura do Estado peruano. Já acomodado na cúpula do poder político e com crescente domínio sobre as Forças Armadas e a Polícia Nacional, Montesinos segurou sem medo e com audácia as rédeas do poder, convertendo-se na verdadeira eminência parda do governo Fujimori. Fujimori admitiu várias vezes que Montesinos era o arquiteto da luta contra os grupos rebeldes, como o Sendero Luminoso e o Movimento Revolucionário Tupac Amaru (MRTA), mas pouco a pouco foi cedendo poder ao homem que conseguiu corromper muitas destacadas figuras públicas e empresariais do Peru. O verdadeiro Palácio do Governo era seu bunker no outrora todo poderoso Serviço de Inteligência Nacional (SIN), a cuja sede eram convocados aqueles que Montesinos queria dominar ou chantagear através dos vídeos que ele mesmo ordenava gravar. Centenas de vídeos mostram políticos, militares, empresários, diplomatas e jornalistas fechando acordos com Montesinos. Eles saíam depois de apertos de mãos e de ter colocado em seus bolsos milhares de dólares. Montesinos arquitetou a reeleição de Fujimori como parte de um projeto para perpetuarem-se no poder por décadas. A maior parte dos comandantes militares peruanos foram dominados por Montesinos através da entrega de presentes e ao permitir que eles usufruíssem ilegalmente dos recursos do Estado para a compra de armas. A mulher de Montesinos, Trinidade Becerra, e sua filha, Silvana, também foram acusadas de cumplicidade no uso do dinheiro proveniente de corrupção.

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