Montesinos vai entregar Fujimori para livrar-se da perpétua

Vladimiro Montesinos, desde esta segunda-feira nas mãos da justiça peruana como chefe da maior rede de corrupção da história do país, tentará evitar sua condenação à prisão perpétua em troca de informações que possam incriminar o presidente destituído Alberto Fujimori, informaram fontes judiciais. Segundo apurou a Ansa, no segundo dia de "declarações preliminares" a juízes e promotores anticorrupção, Montesinos antecipou sua disposição de "colaborar" e fornecer detalhes sobre os delitos atribuídos a ele. Os magistrados aguardam ansiosamente, segundo alguns jornalistas locais, que Montesinos "colabore" com novas declarações que incriminem Fujimori, atualmente refugiado no Japão. Fujimori e Montesinos são suspeitos de terem mantido uma espécie de "sociedade" para promoverem atos ilícitos, desde cumplicidade na execução de ações políticas a delitos contra a humanidade. Ambos são acusados de serem os mentores intelectuais dos massacres de La Cantucha e Barrios Altos, além de graves violações dos direitos humanos. Também há versões sobre assassinatos de pessoas que em algum momento se opuseram ou detinham informações sobre a rede de corrupção de Montesinos de lavagem de dinheiro e narcotráfico. Montesinos, detido em Caracas no domingo, apareceu perante os peruanos visivelmente cansado, sem sinais de cirurgias plásticas e com 10 quilos a menos. Os juízes esperam que Montesinos revele como funcionava a organização criminosa, seus vínculos e a magnitude das ações ilegais que culminaram com o desvio de centenas de milhões de dólares para contas bancárias do próprio Montesinos e alguns de seus testas-de-ferro. Acredita-se que Montesinos também seja capaz de revelar a localização de contas milionárias em bancos no exterior, os nomes dos testas-de-ferro e sócios da rede criminosa e suas ligações com outras gangues internacionais relacionadas ao tráfico de drogas. O assessor de Fujimori também teria informações sobre a rede de narcotráfico entre Peru e Colômbia, já que durante anos foi arquiteto e executor de uma série de ações executadas supostamente contra as máfias do narcotráfico. Montesinos foi advogado de narcotraficantes colombianos antes de exercer o cargo de assessor de Fujimori, entre 1990 e 2000. Imediatamente, as autoridades judiciais confirmaram que Montesinos é réu em diversos processos por crimes: contra a administração pública, corrupção de funcionários, peculato, contra a vida, o corpo e a saúde, homicídio qualificado, homicídio agravado, contra a segurança, tráfico ilícito de drogas e violação dos direitos humanos, entre outros. Em uma declaração atribuída por fontes a Vladimiro Montesinos, ele teria dito: "O que fiz fazia parte de minha função. Meu trabalho era garantir a reeleição do presidente Alberto Fujimori em 2000. E isso aconteceu. Não importavam os meios. O que interessava era o fim." De acordo com o procurador José Ugaz, que investiga os delitos cometidos pelo ex-assessor de Fujimori, assim como na opinião de juristas famosos, Montesinos pode ser condenado à prisão perpétua. Montesinos deverá ser encaminhado, nas próximas horas, a uma penitenciária de segurança máxima, saindo de sua atual cela no Cárcere do Poder Judiciário, no sótão do Palácio da Justiça. Nos corredores dos tribunais, circularam nesta terça-feira diversas versões entre elas uma outra declaração atribuída a Montesinos segundo a qual "nos últimos meses vocês ouviram muitas histórias, mas eu lhes contarei outras". O governo do presidente Valentín Paniagua reiterou nesta terça-feira que garantirá a Montesinos um julgamento justo, ao mesmo tempo em que anunciava que está sendo criada uma estratégia jurídica que possibilitaria a "imediata extradição" de Fujimori, que até agora recusou-se a responder às acusações que pesam contra ele.

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