REUTERS/Kyodo
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Moradora de Fukushima diz: 'Perdemos nossa cidade, perdemos nossa vida'

Yoko Shoji, de 70 anos, que morava a 3,3 quilômetros da usina nuclear de Fukushima, conta o drama dos moradores após o acidente

O Estado de S.Paulo

21 Janeiro 2018 | 05h30

Fukushima - Morávamos em Okuma, em frente ao Pacífico. Nossa casa ficava a 3,3 quilômetros da 1F (usina nuclear). Às 2h46 da tarde do dia 11 de março, fomos atingidos pelo terremoto. Às 15h27, veio o tsunami. Em 12 de março, às 6h09 da manhã, a prefeitura nos orientou a sair da cidade. Só deu para levar dinheiro e o carimbo (usado como assinatura no Japão).

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Chegamos em Tamura às 11h30. Às 3h36 da tarde, a unidade 1 da usina explodiu. Mas o povo da cidade não sabia da explosão, porque estávamos ocupados com a mudança. Nos dias seguintes, só soubemos o que estava acontecendo pela mídia. Em 14 de março, fomos levados para a fábrica Denso. Usávamos plástico para forrar o chão de concreto e sentimos muito frio porque era inverno. 

Quando deixamos nossas casas, achávamos que não demoraríamos muito, só trouxemos as roupas do corpo. Em 5 de abril, a fomos levados para viver em Aizuwakamatsu. Com a explosão, perdemos tudo. Descobrimos que era uma mentira que não ocorreria um acidente nuclear. Sofremos muito com aquele sentimento de perda. Embora tivéssemos os bens básicos, não sabíamos como passar os dias. Aos poucos, encontramos outras pessoas e decidimos começar algo novo. 

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Eu era desenhista de malhas. Resolvi fazer o urso de pano AiQ para levar nossa mensagem para o mundo. Já vendemos 6 mil ursinhos. Sempre que alguém perguntar de onde vem o brinquedo, vão contar a história de Fukushima. Nossa mensagem é que não podemos fazer algo que não podemos controlar. Temos de criar um mundo seguro e pacífico. 

Hoje, volto para minha casa duas, três vezes por ano. Podemos ficar 2 ou 3 horas. Não posso voltar a viver lá, a não ser que a 1F seja completamente desativada. Mas o governo e a Tepco (dona da usina) já revisaram o calendário muitas vezes, ninguém sabe quando vai acontecer.

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Não tenho confiança no que dizem. Ninguém morreu no acidente, mas o sofrimento mental é enorme. Perdemos contato com parentes e amigos. Nossa agenda ficou menor. Não sabemos se nossos amigos estão vivos, porque a província não informa. Diz que precisa proteger a privacidade das pessoas. Perdemos a cidade, toda nossa vida. Não quero mais energia nuclear, mas o governo trabalha para exportar usinas para outros países. Nosso caso deveria ser uma lição para o mundo. 

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