Moradores de Pequim desconhecem Nobel da Paz chinês

Na comunidade internacional, Liu Xiaobo é reconhecido por seu incansável trabalho pela promoção dos direitos humanos e da democracia na China, o que lhe rendeu o Prêmio Nobel da Paz e uma pena de prisão em seu país. Mas, para muita gente em Pequim, ele continua sendo um ilustre desconhecido.

BEN BLANCHARD, REUTERS

10 de dezembro de 2010 | 10h00

Pergunte a alguém na rua a opinião sobre Liu, cujo Nobel será oficialmente entregue nesta sexta-feira em Oslo, e a primeira reação costuma ser: "Quem?".

A resposta é uma prova da eficácia do governo para apagar a lembrança da sangrenta repressão às manifestações pró-democracia na praça da Paz Celestial, em 4 de junho de 1989, evento crucial na vida de Liu.

"Acho que vi algo a respeito disso na televisão, mas não tenho certeza", disse a empresária Ma Junpeng quando questionada sobre Liu. Ma deu de ombros ao saber que ele havia recebido o prêmio por seu trabalho dos últimos 21 anos pela liberdade política na China.

"Não é racional recompensar um homem desse jeito", disse ela, tremendo no frio pequinês. "Tudo é diferente agora em relação à revolta de 1989. As ideias das pessoas mudaram. A China mudou. Gente como Liu é irrelevante."

Em dezembro de 2009, Liu foi condenado a 11 anos de prisão por subversão e por ter sido o principal autor de um manifesto pró-democracia intitulado Carta-08. Antes, ele já havia passado 20 meses detido por sua participação no incidente da praça da Paz Celestial (ou Tiananmen).

Em conversa com sua mulher, Liu Xia, que está sob prisão domiciliar, Liu disse que o Nobel dado a ele é um tributo a todos os mortos em 1989 por soldados em Tiananmen, praça central de Pequim.

A causa de Liu continua sendo praticamente desconhecida da população, mas seu nome não está ausente na imprensa estatal - aparece nas estridentes denúncias do governo contra a concessão do prêmio a um homem oficialmente apontado como criminoso e subversivo.

"Sou chinês, e por isso apoio o governo chinês", disse Lao Jiang. "Não importa o que a comunidade internacional diga. Ele violou a lei chinesa. Quando eu soube da notícia (do prêmio), fiquei realmente chocado."

Também na internet, muitos usuários criticam o Nobel para Liu, que seria uma "interferência" do Ocidente sobre os assuntos chineses. Já as mensagens de apoio a ele são prontamente apagadas.

Mas gente como Zhang Xianling, que perdeu um filho na praça da Paz Celestial, não se abala com a aparente falta de interesse ou conhecimento a respeito de Liu neste momento de enorme prosperidade para os chineses.

"Embora alguns possam ser cegados pelo dinheiro, as pessoas com senso de justiça são maioria", disse ela à Reuters da província de Yunnan, para onde foi levada nesta semana por autoridades que tentavam impedi-la de falar com jornalistas.

De fato, o trabalho de Liu resultou em reflexão para alguns pequineses. "Estamos vivendo o romance '1984' (de George Orwell, a respeito de uma sociedade autoritária)", queixou-se um universitário que se identificou apenas como Li. "Orwell provavelmente não tinha ideia de que o que ele escreveu acabaria sendo realidade na China atual."

(Reportagem adicional de Tyra Dempster e Michael Martina)

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