Moradores de Pyongyang aparentam tranquilidade

Com problemas crônicos nas áreas de energia e abastecimento alimentar, regime comunista afrouxa algumas proibições

PYONGYANG, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2013 | 02h02

Pyongyang não parece ser a capital de um país à beira de um confronto nuclear. Brigadas de centenas de trabalhadores com enxada em punho se dedicam à troca do gramado da cidade e à restauração de monumentos em homenagem a Kim Il-sung antes da celebração dos 101 anos de seu nascimento, no dia 15.

A retórica bélica presente nos jornais, na agência de notícias e nas TV estatais não é evidente na paisagem urbana, semelhante à presenciada pela reportagem do Estado há um ano: longas filas nos pontos de ônibus e multidões que caminham de casa para o trabalho e do trabalho para casa, em razão da precariedade do sistema de transporte público, afetado pela crônica falta de energia e combustível.

No fim da tarde, estudantes jogam vôlei em quadras ao lado do Rio Taedong e crianças patinam na Praça Kim Il-sung, espaço onde são realizados os sincronizados desfiles militares que se tornaram símbolo do país.

É possível notar sinais sutis de relaxamento com o mundo exterior no país governado por Kim Jong-un, o jovem de 30 anos que representa a terceira geração da dinastia fundada por seu avô, Kim Il-sung, em 1948. Os estrangeiros não são mais obrigados a deixar seus celulares no aeroporto, como ocorria até o início de março, e podem equipá-los com chips locais. Mas os aparelhos têm de ser registrados na imigração e só podem fazer ligações internacionais.

O Tupolev da estatal Air Koryo no qual a reportagem do Estado viajou de Pequim para Pyongyang estava quase lotado. Grande parte dos passageiros era de norte-coreanos que trabalham ou estavam em missões na China. Muitos levavam grandes caixas com produtos do país vizinho e sacolas do free shop do aeroporto, principalmente pacotes de cigarros. Um passageiro tinha o broche com a imagem de Kim Jong-il, pai de Kim Jong-un, quatro sacolas de compras e um tablet.

O outro grande grupo de passageiros eram os chineses, que respondem por cerca de 70% do comércio exterior da Coreia do Norte e são os principais fornecedores da maioria dos bens de consumo vendidos no país. Também são os grandes compradores de carvão e minério de ferro locais.

O voo tinha cerca de 20 estrangeiros, 9 dos quais integravam um grupo de 2 casais e 5 crianças dinamarqueses em viagem de turismo na Coreia do Norte. A maioria dos demais trabalha em ONGs que fazem ações humanitárias no país ou em entidades internacionais, como a Organização Mundial de Saúde.

Pyongyang é o cartão-postal do regime e sua população vive em melhores condições que habitantes do campo e das demais cidades. Ainda assim, parte da capital vive quase às escuras: em alguns bairros há luzes nas casas, mas as ruas não têm postes de iluminação pública. O fornecimento de energia é instável. Houve sete quedas entre as 21horas de ontem e a 1h30 de hoje (horário local).

A zona rural vive na escuridão e fotos de satélite mostram uma área negra, em contraste com as luzes da Coreia do Sul e da China.

Não falta iluminação no conjunto de altos prédios concluído no ano passado nas proximidades da Praça Kim Il-sung, que mudou o skyline da cidade e se transformou no principal símbolo da remodelação de Pyongyang promovida pelo regime.

O complexo de edifícios destoa tanto do restante da cidade por sua estética arrojada e iluminação exuberante que os estrangeiros que vivem em Pyongyang o apelidaram de "Dubai". Outras aquisições recentes são um centro de recreação equipado com pista de patinação no gelo, sauna e piscinas, completado do outro lado da rua por um salão de boliche e restaurantes. / C.T.

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