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Moradores de Yangon fogem após 'banho de sangue' dos últimos dias em Mianmar

Ao menos 20 manifestantes morreram na segunda, além de 74 no domingo; apesar da condenação internacional, junta militar tem aumentado repressão

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2021 | 15h00

Vários habitantes da cidade de Yangon, capital de Mianmar, fugiram nesta terça-feira, 16, de um distrito que se tornou cenário de confrontos nos últimos dias, enquanto as famílias dos manifestantes do movimento pró-democracia se preparavam para enterrar seus mortos após o "banho de sangue" das forças de segurança.

Mais de 180 civis morreram desde o golpe de Estado de 1º de fevereiro contra Aung San Suu Kyi, segundo a Associação de Ajuda aos Presos Políticos (AAPP). O balanço aumentou consideravelmente nos últimos três dias. A junta parece mais decidida do que nunca a reprimir os protestos, apesar das condenações internacionais.

"Em Mianmar, os militares tentam anular os resultados de eleições democráticas e reprimem brutalmente os manifestantes pacíficos", afirmou nesta terça-feira o secretário de Estado americano, Antony Blinken, em Tóquio.

Em Hlaing Tharyar, um subúrbio industrial de Yangon, a capital econômica do país, onde vivem trabalhadores pobres que são empregados de fábricas têxteis, muitas pessoas abandonaram a área às pressas. Alguns colocaram seus pertences e animais de estimação em caminhões, tuk-tuks, ou veículos pequenos.

"Era possível observar pessoas nas estradas até onde a vista alcança em fuga para retornar a suas regiões de origem", afirmou um meio de comunicação local. No domingo, a junta militar declarou lei marcial nesta área do subúrbio depois que grupos incendiaram várias fábricas chinesas. As forças de segurança abriram fogo e mataram dezenas de manifestantes. 

Todas as pessoas detidas no distrito e nos outros cinco distritos de Yangon que estão sob lei marcial correm o risco de serem processadas em um tribunal militar, o que pode resultar em pena mínima de três anos de trabalhos forçados. 

Mártires

Mianmar também se preparava nesta terça para sepultar os mortos. Ao menos 20 manifestantes morreram na segunda, segundo a AAPP. O domingo foi o dia mais violento da repressão, com 74 civis mortos por tiros. A junta militar anunciou o óbito de um policial.

"Muitos adolescentes foram assassinados, e o uso de munição real está se intensificando, inclusive durante a noite", afirmou a AAPP. O Exército não respondeu aos pedidos de informação. Os funerais de vários manifestantes estavam programados para esta terça em todo país, inclusive em Yangon. Durante a noite, foram organizadas vigílias em várias cidades.

"R.I.P." (Descanse em Paz), escreveram com velas os moradores de Mandalay, a segunda maior cidade do país. "Apoiamos nossos mártires" e "lutaremos até o fim", afirmaram algumas mensagens nas redes sociais. Pequenos grupos dispersos de manifestantes se concentraram em Yangon, mas em número reduzido pelo temor de represálias.

Desde domingo a junta militar bloqueia as conexões de internet móvel, o que dificulta a coordenação dos manifestantes. A violência dos últimos dias provocou uma nova onda de protestos internacionais.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, por meio de seu porta-voz Stephane Dujarric, denunciou um "banho de sangue". Também pediu à comunidade internacional, "incluindo os atores regionais, que se unam em solidariedade com o povo birmanês e suas aspirações democráticas".  

Após a violência de domingo, quando foram atacadas 30 fábricas chinesas, segundo a imprensa estatal, Pequim afirmou que estava "muita preocupada" com a segurança de seus cidadãos em Mianmar.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Zhao Lijian, pediu às autoridades a adoção de medidas para "evitar resolutamente a repetição dos incidentes". O ressentimento contra a China aumentou nas últimas semanas em Mianmar porque muitas pessoas consideram que sua postura contra os generais birmaneses não é suficientemente forte. 

Detenções

O Exército também responde aos protestos na frente judicial. De acordo com a AAPP, desde 1º de fevereiro quase 2.200 pessoas foram detidas, incluindo Aung San Suu Kyi, de 75 anos, que permanece incomunicável, assim como políticos, autoridades locais, ativistas, artistas e funcionários públicos em greve.

A ex-chefe de fato do governo civil deveria ter participado de uma audiência por videoconferência na segunda-feira, mas a sessão foi adiada por falta de acesso a Internet. A vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 1991 foi acusada por quatro infrações. Também foi acusada de corrupção porque, segundo o regime, teria recebido 600.000 dólares em subornos e mais de 11 quilos de ouro.

A próxima audiência está prevista para 24 de março. / AFP

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