Virgine Nguyen Hoang/AFP
Virgine Nguyen Hoang/AFP

Moradores do Cairo burlam toque de recolher

No escuro, egípcios contornam restrições do estado de emergência em cafés, rodas de narguilé e em grupos de amigos – sempre na clandestinidade

Andrei Netto, Enviado Especial

18 de agosto de 2013 | 22h11

Faltavam instantes para o início do toque de recolher, às 19 horas deste domingo, no Cairo, quando o táxi que transportava a reportagem do Estado chegou ao início da ponte Qasr al-Nil, que liga a ilha de Zamalek à Praça Tahrir, no centro da capital. De automóvel, cruzá-la não levaria mais de um minuto, mas na sua cabeceira havia uma recém-instalada barreira de carros blindados, arames farpados e militares impedindo a passagem.

Para evitar o contato com os soldados, que entre a sexta-feira e o domingo detiveram vários jornalistas estrangeiros no Cairo sob a alegação de falta de "autorização de trabalho", o taxista deu meia-volta, como faziam outros veículos, e se dirigiu a outra ponte, a 6 de Outubro, a mais importante da capital. Pouco mais de 100 metros depois, uma nova barreira de blindados e militares impedia a passagem. E já havia passado o horário de início do toque de recolher.

Na prática, a marca de 19 horas serve como orientação. No estado de emergência no qual o Egito está mergulhado, os militares convencionaram que egípcios e estrangeiros já devem estar em casa nesse horário.

Aqueles que ainda precisarem se deslocar em automóveis devem fazê-lo até as 20 horas, quando então qualquer pedestre nas ruas corre o risco concreto de ser preso e explicar por horas o motivo pelo qual está desobedecendo o decreto presidencial.

Preocupada em cumprir o horário, a reportagem pediu ao motorista que desse meia-volta e trafegasse no sentido contrário, rodando pela Nile Corniche, às margens do Rio Nilo. Na cabeceira da travessia, novo bloqueio de militares. Restava uma alternativa: seguir pela Nile Corniche até a ponte El-Rawda.

No trajeto havia mais dois bloqueios e ultrapassar um deles foi inevitável. O motorista foi parado, teve de descer do carro, apresentar documentos, e abrir o porta-malas. A seguir, foi a vez do passageiro apresentar o passaporte brasileiro. "Aqui não pode passar", disse o soldado.

No Cairo sitiado pelo Exército, não restava alternativa: todas as rotas para chegar a Zamalek estavam bloqueadas. Por volta das 19h40, o táxi teve de encostar mais uma vez. A única alternativa foi sair dali a pé e atravessar duas barreiras.

Pelo caminho, o que se via era um pouco da vida secreta do Cairo sob sítio. Enquanto nas avenidas principais motoristas e famílias resignavam-se a obedecer os militares, buscando alternativas de trânsito e rodando na contramão em grandes artérias, em ruas adjacentes a vida continuava em pequenos cafés, em discretas rodas de narguilé com bancos nas calçadas ou em pequenos grupos de jovens que escapavam às leis marciais conversando em voz baixa. Tudo no escuro.

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