Mason Trinca/WP
Mason Trinca/WP

Moradores de Oregon relatam dificuldades para respirar por fumaça de incêndios

Uma semana após início das queimadas, qualidade do ar no Estado está entre as piores do mundo

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2020 | 03h00

Faz uma semana que Deborah Stratton não respira ar puro.

A mulher de 54 anos e sua amiga tiveram de sair de suas casas em Estacada, Oregon, na semana passada, quando as chamas se aproximaram. Elas passaram dias dormindo em seus carros no estacionamento do Walmart, gastando seus últimos US$ 12 nos chuveiros de uma parada de caminhões. Mas conseguiram chegar até aqui, um shopping a cerca de 30 quilômetros de sua cidade, no estacionamento onde um voluntário da Cruz Vermelha começou a armar uma barraca para elas.

A fumaça as seguiu, pairando pesada no ar, prendendo-se ao fundo da garganta de Stratton.

“Ela queima no peito”, conta. “E está ficando cada vez mais grossa”.

Uma semana depois que incêndios florestais começaram a devastar o Estado e a desabrigar milhares de pessoas, a qualidade do ar em muitas regiões do Oregon está entre as piores do mundo, tão ruim quanto o “ar-pocalipse” da poluição de Pequim em 2013. Enquanto nuvens brancas e espessas pairam sobre os edifícios e rodovias, uma realidade miserável está se instalando para os habitantes do Oregon: eles podem fugir dos incêndios, mas não conseguem escapar da fumaça.

Nauseante e sufocante, a fumaça fica impregnada nas roupas, nos cabelos, nos lençóis. Nenhum banho parece capaz de se livrar dela, nenhum purificador de ar consegue mascarar seu cheiro. Ela penetra em tudo, mesmo com as janelas e portas fechadas. Se você abre uma fresta do vidro do carro, ela dá um jeito de entrar. Se liga o ar condicionado, as saídas de ar a expelem em quantidade ainda maior. Se põe a máscara, ela o sufoca com o cheiro de cinza.

“É como se enfiar numa salinha junto com doze pessoas, todo mundo fumando cigarro”, diz Lisa Jones, amiga de Stratton. É um lembrete aterrorizante de que, em algum lugar, não muito longe, o fogo ainda está queimando. “A fumaça me faz sentir que não acabou, que ainda vai chegar aqui”.

Os incêndios florestais que atingem Oregon ceifaram pelo menos dez vidas e deixaram pelo menos 22 pessoas desaparecidas, disseram autoridades estaduais na última segunda-feira, 14. As temperaturas mais baixas e a umidade mais alta permitiram que os bombeiros avançassem sobre os incêndios, mas muitos dos focos no Estado continuam a crescer com pouca contenção. A tão esperada chuva, até então prevista para segunda-feira, agora só é esperada para quarta ou quinta, disse Doug Grafe, chefe de proteção contra incêndios do Departamento Florestal de Oregon. E pode trazer tempestades e relâmpagos, que podem provocar mais incêndios, disse.

“Sem dúvida, nosso Estado foi levado ao limite”, disse a governadora democrata Kate Brown. “A fumaça que cobre o Estado é um lembrete constante de que essa tragédia ainda não acabou”.

Em hospitais de todo o Estado, as autoridades de saúde já estão vendo o impacto do ar perigoso. Dez por cento de todas as entradas nos prontos-socorros de Oregon se referem a sintomas semelhantes aos da asma, disse Gabriela Goldfarb, gerente da seção de saúde pública ambiental do Estado. Autoridades disseram que planejam enviar 250 mil máscaras respiratórias N95 para trabalhadores agrícolas e tribos indígenas, para protegê-los da fumaça. Não há expectativa de céus um pouco mais claros até o fim da semana.

“Mesmo em alguns lugares onde às vezes pode haver uma melhora limitada”, disse Goldfarb, “isso significa apenas uma queda de ruim para menos pior”.

Em Portland, a fumaça e a névoa de domingo e segunda-feira cobriram tudo à vista. A orla, geralmente cheia de gente correndo e passeando com cães, estava vazia. Nas pontes do rio Willamette, não dava para ver nada além de nuvens brancas de ambos os lados.

No bairro de Hawthorne, conhecido por suas boutiques e restaurantes, muitos estabelecimentos estavam às escuras no domingo. Cafés e lojas que recentemente tinham pendurado cartazes com as palavras “Bem-vindos de volta!” e “Estamos abertos!” agora exibiam palavras rabiscadas em folhas de papel coladas nas portas: “Fechado devido ao ar”.

Do outro lado da cidade, Mark Rohner estava esperando num ponto de ônibus, usando um pano umedecido com água e eucalipto sobre a máscara N95 para respirar melhor. Ele tinha ficado em casa nos últimos três dias, tentando fugir da fumaça que estava lhe dando dores de cabeça e o deixando tonto. Até mesmo uma ida de meia hora ao supermercado já o deixava nauseado.

Ele não queria sair de casa, mas tinha o aluguel para pagar e por isso precisava trabalhar como corretor de imóveis. Parecia o início da pandemia de novo: cada saída de casa trazia riscos de exposição.

“É meio assim, o que vem agora?”, ele disse. “Quando está na hora de dizer chega? Até onde você consegue ir?”.

Por não ter carro, Rohner não tinha como escapar da cidade. E, mesmo se pudesse, para onde iria? Ele poderia pegar um trem para os arredores de Portland, mas “o que você faz quando chega aos limites da cidade?”.

A fumaça estava ainda pior em outras partes do Estado. Ele invejou um amigo que fugira para Boise, Idaho.

“É uma sensação claustrofóbica”, disse ele. Mesmo depois de ficar em quarentena durante a pandemia, “agora me sinto mais preso do que o normal”.

No nordeste de Portland, DeShawn Brown estacionou o caminhão FedEx na frente de seu destino, com as portas e janelas abertas, como sempre. Motorista de entrega de uma empresa terceirizada, Brown empurrou o carrinho até o prédio de apartamentos e descarregou algumas caixas de papelão.

“A fumaça me deixa meio lerdo”, disse Brown, 45 anos. “Os outros caras também estão tentando descobrir um jeito de respirar. Porque é assim que rodamos, com as portas abertas”.

Do outro lado da cidade, na frente de uma igreja, Teberih Medhanie, 60 anos, máscara azul e lenço na cabeça, esperava que seu filho viesse pegá-la para irem ao velório de um parente. Ela estava evitando ficar do lado de fora a todo custo e estava com muito medo de andar de carro sob a fumaça pesada.

Seu filho, Jordan Taylor, estava preocupado com a maneira como a fumaça poderia afetar a saúde de sua mãe. Ficar ao ar livre era sua maneira de enfrentar a quarentena. Ele sentia falta da luz do sol, da vitamina D, das caminhadas.

“Não podemos ficar dentro de casa com as pessoas. Agora temos essa fumaça e também não podemos ficar do lado de fora”, disse Taylor. “Você não consegue respirar nem um pouco de ar fresco”.

Quando a noite de domingo caiu sobre o estacionamento do Clackamas Town Center, a cerca de 16 quilômetros de Portland, Karol Parham estava com os olhos inchados e a voz rouca por causa da fumaça. Ela estava sentada numa cadeira de praia, tomando uma cerveja ao lado de seu novo amigo, Ryan Brault, uma caixa de papelão de cabeça para baixo fazendo as vezes de mesa. Depois de passar dias estacionados um ao lado do outro, eles vivaram vizinhos nessa nova comunidade de removidos dos incêndios.

Um voluntário da Cruz Vermelha havia lhes dado uma barraca, mas nenhum dos dois queria dormir nela. Eles se sentiam mais confortáveis nos seus carros, onde podiam circular o ar para não respirar a fumaça. Brault havia descoberto uma estratégia noturna: deixava o ar rodando dentro do carro por meia hora, desligava e ligava novamente algumas horas depois. Ele sabe que é hora de circular o ar quando começa a sentir os olhos arderem, disse ele.

“Você sente a cada duas horas”, disse ele. “Aí você acorda”.

As dores de cabeça e no peito de Parham sempre pioram à noite, quando a fumaça fica mais densa, disse ela.

“Os lábios ficam secos”, Parham disse. “Você toma água feito louco”.

A metros de distância, Stratton levava o inalador à boca e inspirava. Antes, ela raramente usava o inalador, apenas uma vez por semana. Desde que a fumaça chegou, passou a usá-lo quase cinco vezes por dia, disse.

Com escova de dentes, xampu e toalha nas mãos, ela foi até os chuveiros da Cruz Vermelha, na esperança de finalmente se sentir limpa depois de mais um dia sufocada pela fumaça. Ficava aflita por estar sempre cheirando a cinzas. “Eu me sinto suja o tempo todo”.

Minutos depois, ela voltou com o cabelo molhado e o pijama limpo, pronta para entrar em sua barraca e assistir TV no telefone. Ela abriu a porta do motorista de seu Ford Explorer e borrifou um pouco de seu sabonete líquido favorito, uma fragrância Twilight, que ela esperava que mascarasse a fumaça.

Mas não fez muita diferença.

“Já dá para sentir o cheiro de novo”, disse ela. Mais fumaça. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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