Thomas Shea/ AFP
Thomas Shea/ AFP

Moradores do Texas recebem contas de luz de até US$ 8 mil depois de ficarem dias sem luz

Concessionárias de energia tiveram perdas de US$ 50,6 bilhões (mais de R$ 275 bilhões) e ameaçam cobrar os custos nas contas dos texanos pelos próximos dez anos

The Washington Post, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2021 | 12h00

TEXAS — Agora que as luzes estão de volta ao Texas, o Estado precisa descobrir quem vai pagar pela crise de energia que mergulhou milhões na escuridão na semana passada. Provavelmente serão texanos comuns.

A conta até agora está na faixa dos US$ 50,6 bilhões (mais de R$ 275 bilhões), o que representa o custo da eletricidade vendida desde a manhã de segunda-feira, quando começaram os apagões, até a manhã de sexta-feira, segundo estimativas da BloombergNEF. Isso se compara aos US$ 4,2 bilhões (cerca de R$ 22 bilhões) da semana anterior.

Alguns desses custos já recaíram sobre os consumidores, que, expostos aos preços de atacado, viram suas contas de energia chegarem até US$ 8 mil (quase R$ 44 mil) na semana passada. Outros clientes não saberão no que estão se metendo até receberem as contas de gás e luz no final do mês.

Segundo Michael Webber, professor da Universidade do Texas em Austin e diretor de ciências da empresa de energia francesa Engie AS, o prejuízo provavelmente será compartilhado pelos contribuintes.

Se as crises anteriores do mercado de energia dos EUA servirem de guia, os texanos podem ficar em apuros por décadas. Os californianos, por exemplo, passaram cerca de 20 anos pagando pelas fraudes e a falência da empresa Enron, no início deste século, por meio de sobretaxas em suas contas de luz.

A CPS Energy, que pertence e é administrada pela cidade de San Antonio, disse no Twitter que estava procurando maneiras de distribuir os custos da última semana pelos próximos 10 anos. Isso não agradou a seus clientes, que protestaram contra a proposta da empresa durante uma reunião do conselho na segunda-feira.

“Distribuir o custo deste evento ao longo de uma década é inaceitável. Os clientes já estão endividados com empréstimos estudantis, hipotecas e outros pagamentos”, disse Aaron Arguello, ativista da organização Move Texas.

Mas as empresas que tiveram perdas enormes com o aumento vertiginoso do custo da eletricidade na semana passada inevitavelmente tentarão recuperá-las por meio de seus clientes, contribuintes ou títulos. A rapidez com que os texanos pagam depende de quem é seu provedor.

As concessionárias de gás geralmente repassam os custos aos clientes no final do ciclo de faturamento mensal, disse Toby Shea, diretor sênior de crédito da Moody's Investors Service.

Os serviços municipais, cooperativas e fornecedores de energia regulamentados têm a capacidade de distribuir os custos por um período de tempo mais longo. “É muito fácil para um governo dividir isso por muitos anos e até mesmo por alguns meses.”

A CEO da CPS, Paula Gold-Williams, disse na semana passada que a empresa também pode emitir títulos para ajudar a pagar pelo gás natural que comprou a preços inflacionados.

Algumas empresas de serviços públicos estão procurando garantir centenas de milhões de dólares em empréstimos para distribuir os custos por 10 a 20 anos, destacou Scott Sagen, diretor associado de finanças públicas dos EUA na S&P Global Ratings.

Uma série de empresas de serviços públicos está em negociações com seus bancos para obter liquidez para saldar suas dívidas atuais, de modo que possam, então, tomar um empréstimo-ponte que converterão em títulos de longo prazo. “Eles estão tentando suavizar esses custos o máximo possível e fornecer cobertura para seus clientes”, explicou Sagen.

Mas os pequenos varejistas que tendem a ser pouco capitalizados e menos protegidos têm opções limitadas. Uma dessas empresas, a Griddy, disse na semana passada que desafiaria os preços definidos pela operadora da rede durante a crise, em uma aparente tentativa de recuperar as perdas para ela e seus clientes.

Outra empresa, a Octopus Energy, informou na segunda-feira que perdoaria qualquer conta de energia que excedesse o preço médio da eletricidade da semana e assumiria as perdas resultantes, que poderiam chegar a milhões de dólares.

O regulador de serviços públicos do estado impediu no domingo que os vendedores de energia cortassem a luz dos clientes por falta de pagamento, dizendo que o governador e o Legislativo precisam primeiro de tempo para bolar um plano para resolver as contas altíssimas.

Os parlamentares do Texas provavelmente abordarão a discussão sobre o alívio do consumidor como parte das audiências sobre a crise que começarão esta semana, disse um porta-voz da Comissão de Serviços Públicos do Texas.

Em teoria, a Assembleia estadual poderia aprovar um projeto de lei de emergência que poderia cobrir os custos excessivos cobrados pelos geradores durante a crise, destaca Julie Cohn, uma historiadora de energia no Centro de Estudos de Energia da Universidade Rice e no Centro de História Pública da Universidade de Houston.

“Outra saída seria dizer que você pode ter um mercado de energia competitivo que temos, mas proibir o fornecedor de vincular o preço diretamente ao preço do atacado, como faz a Griddy.”

De acordo com Webber, isso seria mais fácil de executar em um estado com uma política regulatória mais pesada para seu mercado de eletricidade, o que não é o caso do Texas, que decidiu adotar um sistema desregulamentado.

“A questão é de onde virá o dinheiro? O Texas irá resgatar certos clientes? Essa não é posição com que normalmente gerenciam seu mercado ou gerenciam sua economia”, disse Shea.

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