Moradores saem da capital do Timor Leste por medo da violência

Dezenas de milhares de pessoas fugiram de Dili, a capital do Timor Leste, com medo de que haja novos ataques de soldados rebeldes, como os que aconteceram nas últimas semanas.De acordo com a imprensa australiana e neozelandesa, de 20 mil a 100 mil moradores de Dili deixaram a cidade desde quinta-feira em direção a outras regiões. O deslocamento começou após o rumor de que poderiam ocorrer novos distúrbios. Na última sexta-feira, cinco pessoas morreram e 45 casas foram destruídas.A população fugiu em carros, caminhões, motocicletas e a pé em direção às cidades de Baukau, Viqueque e Lospalos, no leste do país.Outras fontes afirmam que cerca de quatro mil pessoas teriam procurado abrigo no seminário católico de Don Bosco. Outros 500 estariam concentrados no porto com a esperança de embarcar para a parte indonésia da ilha (Timor Ocidental).O primeiro-ministro timorense, Mari Alkatiri, admitiu nesta sexta-feira em comunicado que a maior parte da população fugiu na última quinta, e que o êxodo continua em menor medida. No entanto, ressaltou que a situação em Dili é de normalidade, e desmentiu as informações de que estaria havendo saques e roubos.Alkatiri e o presidente do Timor Leste, Xanana Gusmão, disseram nesta sexta-feira aos jornalistas que instruíram os funcionários públicos para que voltem ao trabalho na segunda-feira, sob o risco de sofrerem punições disciplinares.A mensagem foi reiterada pelo ministro das Relações Exteriores timorense, José Ramos-Horta. Ele pediu aos cidadãos de Dili que voltem para casas e postos de trabalho. O ministro afirmou que a fuga em massa resulta do temor causado pelos os atos violentos da semana passada, cometidos por 591 soldados que foram demitidos em março após se declararem em greve por aumento salarial."A democracia ainda é jovem em nosso país, e as pessoas reagiram com medo dos incidentes, abandonando a cidade", disse o ministro.Ramos-Horta está em Nova York. O ministro pretende propor ao Conselho de Segurança das Nações Unidas que amplie sua presença em Dili quando a atual missão terminar seu mandato, em 20 de maio.A Austrália e a Nova Zelândia manifestaram hoje sua preocupação com a situação no Timor Leste. Canberra chegou a oferecer o envio de tropas se o governo timorense considerar necessário.Os últimos incidentes são os mais graves desde que as milícias pró-indonésias lançaram uma campanha de destruição, em 1999, após a vitória da opção independentista no plebiscito. A ex-colônia portuguesa se tornou independente em 2002, mas nasceu como um dos países mais pobres do mundo após a traumática ocupação indonésia (1975-1999).Para analistas, os poucos avanços no âmbito econômico geraram insatisfação entre a população, especialmente entre os mais jovens, que viam os membros do governo como "heróis" da luta pela independência.Essa desilusão também chegou aos quartéis do exército, formado após a independência pelos ex-combatentes das Falintil, a guerrilha do Fretilin, movimento independentista liderado por Xanana Gusmão.Os militares que foram às ruas acusaram seus superiores de discriminá-los por critérios regionalistas, favorecendo soldados vindos da região leste do país, leais a Gusmão desde a época da guerra de guerrilhas.

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