Moradores se mobilizaram contra ditador

Os relatos dos moradores de Trípoli são histórias de um heroísmo possível numa cidade vigiada e controlada de forma minuciosa e brutal. Todos os dias havia ataques às forças de segurança em Trípoli, contaram dezenas de moradores ao Estado, ao longo de três semanas de conversas.

TRÍPOLI, O Estado de S.Paulo

25 Setembro 2011 | 03h05

No início, os manifestantes atiravam coquetéis molotov contra os soldados. Com o tempo, foram chegando às suas mãos fuzis Kalashnikov e munição, contrabandeados dos quartéis por civis e militares simpáticos à revolução, tomados dos soldados ou comprados dos criminosos.

Segundo o médico Issam Hajjaji, de 52 anos, os feridos começaram a ser arrancados dos hospitais à força pelos soldados e presos. "Se estavam feridos, eram manifestantes." Endocrinologista do Centro Médico de Trípoli, Hajjaji contrabandeava medicamentos do hospital para sua casa e tratava feridos lá. Outros médicos faziam o mesmo. Se fosse flagrado, sabe que seria torturado e provavelmente enforcado. "Eu não perguntava o nome de nenhum paciente", recorda. "Assim, se fosse pego, não falaria."

Hajjaji vivia sobressaltado: "Eu ficava com medo quando um carro parava na porta da minha casa, alguém apertava a a campainha ou o telefone tocava." Ele conta que um vizinho, que era amigo de seu filho, foi preso pelos revolucionários com grande quantidade de munição. "Alguém assim podia ter me delatado."

O topógrafo Nasser Abia Khris, de 33 anos, conta que sua mãe, irmão, uma de suas duas irmãs (a outra é casada com um kadafista) e ele juntaram, em março, 25 mil dinares (US$ 17 mil) para doar para os revolucionários de Zlitan, a 50 km de Trípoli, de onde vem a família. Mas seu irmão foi pego enquanto levava o dinheiro. O rapaz ficou preso dois meses e o dinheiro foi confiscado. Só foi solto porque o marido de sua tia, de Bani Walid, reduto da tribo warfallah, que apoiava Kadafi, trabalhava no governo.

Khris queria ter entrado na luta armada, mas sua mulher, grávida do primeiro filho, não concordou. O topógrafo, que ganha 2.500 dinares por mês, não se arrepende de ter doado o dinheiro. "Foi pouco para nos livrarmos de Kadafi." / L.S.

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