STR/AFP
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Moral islâmica é reforçada pelas autoridades na capital do Irã

No último mês, mais de 500 cafeterias foram fechadas temporariamente por 'mal uso do hijab'; polícia tem autorização de deter mulheres que não estejam seguindo a lei mesmo em espaços privados

Redação, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2019 | 14h20

TEERÃ - Com o "bom uso do hijab" (o véu islâmico) e a separação de sexos, a polícia do Irã reforçou neste mês a campanha de pressão contra a população iraniana, e também estrangeira, que não acata com todo o rigor o conceito de moralidade das autoridades

Ao término do Ramadã e começo da temporada de calor, as forças de segurança fecharam provisoriamente cafeterias e restaurantes, detiveram jovens que flertavam nas ruas e perseguiam até mesmo festas em embaixadas de países europeus.

O primeiro alerta foi dado ainda durante o mês sagrado dos muçulmanos - que este ano foi de 5 de maio a 3 de junho -, quando a polícia aumentou o cerco à Universidade de Teerã para garantir que as estudantes estavam cobrindo o cabelo e o corpo seguindo as regras, o que gerou protestos. A isto se uniu um aumento das multas as mulheres que dirigem sem o lenço ou aos motoristas que transportavam mulheres que estejam com essa peça nos ombros.

A multa e a apreensão do veículo por alguns dias foi o castigo do arquiteto Ahmad Reza, de 35 anos. Na delegacia, ele disse ter perguntado, irritado, ao policial se não tinha "nada melhor para fazer" do que vigiar o cabelo da esposa dele.

Por causa do chamado "mal uso do hijab" também foram fechadas mais de 500 cafeterias e restaurantes em Teerã, conforme dados divulgados neste mês por Hossein Rahimi, comandante da polícia da capital.

"A atuação contra os que não cumpram a lei islâmica continuará de forma séria e independentemente se os infratores violam esta norma em espaços públicos ou privados", advertiu Rahimi.

Uma das cafeterias afetadas foi a da rede Viuna. Uma loja do norte de Teerã ficou fechada por duas semanas porque algumas clientes não usavam o véu como as autoridades consideram apropriado.

"Agora, somos mais vigiados e, até que passe um tempo e a situação se normalize, pedimos o tempo todo para que nossas clientes respeitem seu hijab", disse um dos garçons.

A dona de outra cafeteria, que preferiu ser identificada apenas com o primeiro nome, Shirin, revelou que os policias costumam adotar estas medidas depois de ir a um desses locais à paisana com o intuito de mostrar que estão atentos a tudo.

Alguns restaurantes do Shopping Ava, um dos maiores de Teerã, também foram impedidos de funcionar. O lugar é muito frequentado por jovens.

No início desta semana, o perfil do shopping no Instagram publicou duas imagens, uma com o desenho de uma mulher com o hijab e o shopping ao fundo e a outra apenas do prédio e as seguintes legendas: "Esperamos que, com todo o respeito pelos princípios islâmicos, ajude-nos a manter a continuidade" e "Estamos felizes em prestar atenção a todos os elementos islâmicos. Ajude-nos a manter a continuidade".

Uma forma de muito comum no Irã de uma pessoa mostrar que está interessada na outra é o chamado o "dor-dor", que significa "girar em círculos" em farsi. Resumidamente é quando dois carros andam paralelamente, enquanto os motoristas trocam olhares. Isso também está na mira da Polícia.

De acordo com o comandante da polícia de Teerã, 569 automóveis de alto padrão foram parados e 13 pessoas foram detidas por praticar o "dor-dor" na Andarzgoo, uma rua cheia de lojas e lanchonetes.

A separação de sexos e o uso obrigatório do véu foram duas normas impostas após o triunfo da Revolução Islâmica, em 1979, assim como a proibição do consumo de álcool. Por isso, qualquer festa com homens e mulheres, na qual elas não estejam cobertas e bebidas alcoólicas estejam sendo consumidas estão no radar dos agentes, que podem entrar nas casas e deter os participantes até que paguem fiança.

Um caso assim ocorreu no início de junho, em Velenyak, um bairro rico de Teerã. Lá, várias pessoas foram detidas em uma festa, entre elas uma diplomata britânica e outra holandesa, que não tiveram a imunidade respeitada.

Agora, a comunidade internacional está preocupada com a nova campanha das autoridades iranianas, segundo reconheceram vários diplomatas. O evento em Velenyak foi qualificado de forma pejorativa pela imprensa oficial como "festa mista", o mesmo termo usado para falar de um evento realizado dias antes na embaixada da Itália, que inclusive teve um vídeo vazado.

O veterano ator iraniano Reza Kianian estava presente, e certa vez ele disse que desde a Revolução Islâmica não houve um dia alegre no Irã.

Parece que essa é a ideia: controlar os poucos espaços de liberdade e de expansão e forçar a população a levar uma vida de recato, sacrifício e luto. / EFE

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