AP Photo/Rick Bowmer
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Mórmon que viveu no Brasil pode vencer Hillary e Trump no Estado de Utah

Evan McMullin está empatado nas pesquisas com magnata republicano e ex-secretária de Estado; ex-missionário morou no Rio Grande do Sul e pode ser o primeiro candidato, desde 1968, a vencer eleição estadual sem pertencer a um grande partido

Cláudia Trevisan, ENVIADA ESPECIAL / SALT LAKE CITY, EUA, O Estado de S. Paulo

30 Outubro 2016 | 05h00

SALT LAKE CITY, EUA - Evan McMullin morou no Rio Grande do Sul de 1995 a 1997 e a lista de cidades que percorreu como missionário mórmon inclui Porto Alegre, Belém Novo, Santa Maria, Alegrete e Pelotas. Duas décadas mais tarde, ele poderá impor uma derrota decisiva a Donald Trump em Utah, um dos mais conservadores Estados americanos, onde republicanos venceram todas as eleições presidenciais dos últimos 52 anos.

Para ter alguma chance de chegar à Casa Branca, o bilionário de Nova York precisa ganhar em todos os Estados que votaram no republicano Mitt Romney, em 2012, quando o democrata Barack Obama conquistou sua reeleição. Além disso, ele tem de levar a Flórida e alguns outros “swing states”, Estados que oscilam entre os dois grandes partidos a cada disputa presidencial e são fundamentais para a definição do resultado.

O independente McMullin tem chance de tirar Utah da coluna de Trump, o que é uma das grandes surpresas da corrida pela sucessão de Obama. O elevado grau de rejeição a Trump no Estado também abriu a possibilidade de vitória da democrata Hillary Clinton, o que seria um tsunami político em Utah, onde 60% da população é mórmon.

Pesquisa divulgada na quarta-feira pelo instituto Rasmussen Reports coloca Trump na liderança com 32%, apenas três pontos porcentuais à frente de McMullin, que se apresenta como o verdadeiro conservador da disputa. 

Hillary está em terceiro lugar, com 28%. O porcentual do bilionário em Utah está abaixo do que ele obtém em Estados democratas no qual ele está atrás de Hillary nas pesquisas e é bem inferior ao registrado por republicanos em eleições anteriores: nas quatro disputas presidenciais desde o ano 2000, os candidatos da legenda venceram em Utah com mais de 60% dos votos.

“Eu sempre votei no Partido Republicano, mas Trump não representa o que eu sou nem os valores que eu defendo”, disse a professora Eder Larsen, de 26 anos, que votará em McMullin. “Como cidadã de Utah e membro da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, eu considero ofensiva a maneira pela qual ele trata minorias, as mulheres e o ideal de família.”

Ex-missionária na Argentina, Larsen afirmou que os mórmons veem com especial preocupação os ataques de Trump aos muçulmanos, interpretados como uma ameaça à liberdade religiosa. “Nós sentimos isso em nossa história”, ressaltou, em referência ao período do século 19 em que os mórmons foram perseguidos. Liderados por Brigham Young, os seguidores da igreja se refugiaram, a partir de 1847, no que viria a ser o Estado de Utah. Com sua paisagem árida, montanhosa e cortada por cânions, a região foi uma das locações preferidas para os clássicos filmes de cowboy e se transformou em um dos símbolos do Oeste americano.

“Eu não posso votar em Hillary e sinto repugnância em relação a Trump. Utah é um Estado fortemente religioso, que preza seus valores morais, e obviamente temos um candidato que não reflete esses valores”, disse o corretor Chris Bingham, de 37 anos, ecoando o sentimento de muitos dos eleitores de Utah, que não se sentem representados por nenhum dos candidatos dos dois grandes partidos. 

“Evan parece ser livre de escândalos. Se Hillary ou Trump forem eleitos, é isso que nós teremos pelos próximos quatro anos: escândalos e mais escândalos”, afirmou Mike Walsamn, que tem cinco irmãos que foram missionários na América Latina, um dos quais no Brasil.

Jason Perry, diretor do Hinkcley Institute of Politics, da Universidade de Utah, disse que a percepção de discriminação religiosa e a retórica antiglobalização colocaram Trump em rota de colisão com a identidade do Estado. “Utah se considera um ator global. Há um grande número de missionários mórmons que viveram em outros países e retornaram com uma visão ampla do mundo.” 

Identidade. No fim do ano passado, Trump defendeu a suspensão temporária da entrada de muçulmanos no país. Na convenção do Partido Republicano, em julho, ele apresentou uma concepção insular do lugar dos EUA no mundo: “americanismo, não globalismo, será o nosso credo”. O candidato também colocou a imigração no centro de sua campanha e prometeu deportar 11 milhões de pessoas que vivem no país de maneira irregular.

Ainda assim, Perry acredita que Trump vencerá em Utah com uma pequena diferença em relação a McMullin e Hillary. A principal razão é a preocupação dos conservadores com a nomeação de juízes para a Suprema Corte, a instituição que tem o poder de moldar aspectos fundamentais da sociedade americana, entre os quais aborto, porte de armas e pena de morte.

Essa é uma das razões pelas quais o mórmon Todd votará em Trump. “A maioria das pessoas aqui sentem que terão de escolher o menor dos males. No meu caso, é Donald Trump, que tem posições com as quais me identifico em relação à economia, à imigração e à Segunda Emenda da Constituição (que trata do porte de armas).”

Em cenário remoto, decisão pode ir para o Congresso.

Se vencer em Utah, Evan McMullin será o primeiro candidato independente a conquistar votos no Colégio Eleitoral dos EUA desde 1968. Na remota hipótese de que nem Hillary Clinton nem Donald Trump consigam o número mínimo de votos para serem eleitos, o ex-missionário mórmon terá, em tese, uma chance de chegar à Casa Branca.

Para vencer, qualquer dos candidatos precisa obter 270 dos 538 votos do Colégio Eleitoral. Caso ganhe em Utah, McMullin conseguirá seis deles e tornará mais difícil o eventual caminho de Trump para a vitória. Se nenhum dos dois principais candidatos conseguir 270 votos, a decisão final sobre a eleição caberá à Câmara dos Deputados, que terá de escolher entre os três primeiros colocados. Com uma vitória em Utah, McMullin estaria na lista.

“A chance é extremamente remota, mas, tecnicamente, ele poderia estar entre os três primeiros”, disse Jason Perry, diretor do Instituto Hinckley de Política, da Universidade de Utah. Na história dos EUA, apenas duas eleições foram decididas pela Câmara dos Deputados, em 1800 e 1824, lembrou Perry.

Esse cenário só se concretizará se Trump ganhar em quase todos os chamados “swing States”, os Estados que oscilam entre democratas e republicanos a cada eleição e serão cruciais para o resultado da disputa. Mas pesquisas mostram que a democrata Hillary Clinton liderando na maioria deles.

 

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