Morre aos 86 anos o ex-ditador indonésio Suharto

O ex-líder governou a Indonésia de 1967 a 1998 e renunciou após crise econômica e revolta popular

EFE

27 de janeiro de 2008 | 06h47

O ex-ditador indonésio Suharto, de 86 anos, morreu neste domingo no Hospital de Petarmina de Jacarta, onde estava internado há 23 dias, informou a equipe de médicos encarregada de atendê-lo.  Porta-vozes médicos disseram que a morte ocorreu às 13h10 (04h10 de Brasília), depois que Suharto entrou em coma após uma falência múltipla dos órgãos. Poucas horas antes de morrer, os médicos que assistiam o ex-ditador anunciaram em entrevista coletiva que seu estado era "muito crítico" e que tinha perdido a consciência pela primeira vez desde que foi internado no hospital, no dia 4 de janeiro.  Ele também tinha voltado a precisar da ajuda de aparelhos para respirar. Na sexta-feira, Suharto havia conseguido voltar a respirar sozinho. O ex-ditador, que também estava sendo submetido a um tratamento de diálises, sofreu várias recaídas desde que foi hospitalizado no Pertamina com pressão baixa, edema e outros sintomas que se unem à septicemia da qual sofre. O ex-líder governou com mão de ferro a Indonésia de 1967 a 1998, quando foi forçado a renunciar por uma crise econômica e uma revolta popular. Durante seu Governo aconteceu a brutal invasão indonésia do Timor-Leste (1975), na qual morreram, segundo grupos de direitos humanos, cerca de 200 mil timorenses. Suharto lidera as listas de dirigentes mais corruptos das últimas décadas elaborada pelo Banco Mundial e pela organização Transparência Internacional, mas nunca foi julgado em seu país devido à sua avançada idade e ao seu delicado estado de saúde. Perfil  A idade terminou sendo o único rival que Suharto não pôde submeter à sua vontade durante a vida. Ele nasceu em 8 de junho de 1921 na aldeia de Godean, em Java, próxima à cidade de Yogyakarta, cerca de 450 quilômetros ao sudeste de Jacarta. Era o segundo de onze irmãos e meio-irmãos. Seus pais se divorciaram quando tinha apenas dois anos e ele passou a viver com seus parentes, que lhe educaram na tradição cultural javanesa, uma combinação de religião muçulmana e certo misticismo. Após concluir seis meses de treinamento militar, Suharto se alistou com a categoria de sargento na Real Marinha das Índias da Holanda, em 1940. Durante a ocupação japonesa, que começa em 1942, recebe instrução do Exército Imperial japonês até que passa ao movimento separatista liderado por Sukarno e que obterá a independência em 1945. Durante os anos seguintes, forja uma triunfal carreira militar que lhe imprime seu peculiar estilo e personalidade autoritária: coronel (1957), brigadeiro (1960) e comandante geral (1962). Ao mesmo tempo estabelece uma família com Hatinah, que com o tempo será chamada por todos de Ibu Tien ou, de forma menos aberta, de "Madame 10%". Com ela, teve seis filhos: Hardijanti Rukmana (Tutut, filha), Sigit Harjojudanto, Bambang Trihatmodjo, Hediati Harijadi (Titiek, filha), Hutomo Mandala Putra (Tommy), Hutami Endang Adiningsih (Mamiek, filha). Em uma época na qual a ameaça comunista pairava sobre todo o Sudeste Asiático, algumas unidades militares apoiadas pelo Partido Comunista da Indonésia protagonizam, em 30 de setembro de 1965, uma tentativa de golpe que terminou com a morte de seis generais. A resposta de Suharto é contundente e esmaga durante os meses seguintes toda oposição: cerca de 500 mil pessoas morreram no "expurgo" de comunistas. Em seguida, elevado à chefia das Forças Armadas, tira Sukarno do poder e, em 1967, a Assembléia Nacional lhe nomeia presidente da nação, dando início à era da Nova Ordem: estabilidade, crescimento, desenvolvimento e ordem. Suharto governará pelos próximos 32 anos apoiado no Golkar (grupo funcional) e na oposição representativa do Partido Democrático da Indonésia (cristãos) e do Partido Unidade para o Desenvolvimento (muçulmanos), as três únicas legendas reconhecidas no país. A "democracia vigiada" permite um progresso econômico notável e o general de sorriso constante, voz clara e forte, e de fala pausada, passa a se tornar entre seu povo em Bapak Pembangunan (Pai desenvolvimento). Curiosamente, quando se ressente o desenvolvimento, com a crise financeira asiática de 1997, seu regime autocrata, considerado um dos mais corruptos do mundo, vem abaixo. Em maio de 1998, depois de vários meses de manifestações contínuas e cada vez mais numerosas, e com um descontentamento social crescente, Suharto anuncia sua renúncia pelo bem da nação.  Sua passagem à vida privada não foi simples, particularmente para seus filhos, que agora cuidam dos impérios financeiros deixados pelo pai. Após uma década de raras aparições públicas, a figura de Suharto conserva um respeito profundo entre a maioria dos 230 milhões de indonésios. Uma pesquisa realizada em 2006 revelava que 63,9% dos consultados pensava que Suharto tinha dirigido bem o país, 17,9% qualificavam seu mandato de fracasso, enquanto 69,6% pensavam que a economia caminhava melhor com o general que com a jovem democracia. Os Governos sucessivos tentaram julgar-lhe por corrupção, mas uma legião de advogados e seu frágil estado de saúde impediram-no de pisar em um tribunal judicial. O mesmo não ocorreu com o seu filho favorito, Tommy, que foi sentenciado a dez anos de reclusão por ordenar o assassinato de um juiz do Supremo que o condenou à prisão por corrupção. O multimilionário e ex-playboy Tommy saiu em liberdade condicional no dia 30 de outubro de 2006, após cumprir dois anos de pena.

Tudo o que sabemos sobre:
Suharto

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.