Juan Mabromata/AFP
Juan Mabromata/AFP

Morre aos 95 anos a vice-presidente das Mães da Praça de Maio

Mercedes 'Porota' Colás de Meroño aderiu em 1978 à organização humanitária criada em plena ditadura argentina; sua filha nunca foi encontrada

Redação, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2021 | 23h42

BUENOS AIRES - Mercedes 'Porota' Colás de Meroño, vice-presidenta da associação Mães da Praça de Maio, que durante décadas denunciou os desaparecimentos de opositores durante a ditadura argentina, morreu nesta quarta-feira , 21, aos 95 anos, em sua casa em Buenos Aires, informou a organização humanitária.  

Sua única filha, Alicia Meroño, foi sequestrada em uma casa em Buenos Aires em 5 de janeiro de 1978 por agentes da ditadura (1976-1983). Ela tinha 31 anos e está desaparecida desde então. 

"Foi embora devagarinho. Todos os dias morria um pouco" desde que sofreu uma fratura no quadril há vários anos, escreveu a líder das Mães da Praça de Maio, Hebe de Bonafini, em carta aberta, intitulada "Porota mudou de casa". 

"Ela era uma das Mães que havia passado duas vezes pela tortura e pelo horror", contou Bonafini sobre a companheira de anos de luta. 

"Esteve na Guerra Civil espanhola, onde seu pai foi fuzilado por ser antifranquista e revolucionário. Ali, além disso, rasparam seus cabelos para que todo o povoado soubesse que seu pai tinha sido fuzilado", lembrou a carta. 

Mercedes Colás nasceu na Argentina em 1925, mas emigrou para a Espanha em 1931 com sua família. Seu pai, José María Colás, um pedreiro  anarquista, foi fuzilado em Londoño, povoado de Navarra onde viviam quando ela tinha 11 anos. 

Depois, voltou para a Argentina com sua mãe e seu irmão e aos 14 anos conheceu Francisco Meroño, um trabalhador têxtil com quem se casaria e teria sua filha, Alicia. 

"E ali esteve ela, com os dois horrores e terrores que nunca a deixaram. Sempre que falava lembrava deles. Outra companheira que se vai e nos deixa um enorme vazio, mas a vida continua (...) Sabemos o compromisso que temos com nossos filhos e que devemos prosseguir", acrescentou Bonafini, de 92 anos. 

Colás de Meroño aderiu em 1978 à organização humanitária surgida em plena ditadura, quando um grupo de mulheres começou a reivindicar o aparecimento de seus filhos, sequestrados e levados a centros clandestinos de detenção, onde eram torturados e assassinados. Cerca de 30 mil pessoas desapareceram no país.

Suas companheiras lembram dela sempre forte e desafiadora. "Me lembro de Porota jogando-se sobre o capô de uma patrulha (policial) para que não nos detivessem", lembrou nas redes sociais uma ativista que a conheceu. 

Como vice-presidente da organização humanitária, Colás de Meroño participou de várias reuniões com líderes mundiais, como Fidel Castro, Yasser Arafat, o subcomandante Marcos na floresta de Chiapas, e os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, Evo Morales, Rafael Correa e Hugo Chávez, entre outros.  /AFP

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