Markus Schreiber/AP
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Morre aos 98 anos o último libertador de Auschwitz

À época soldado do Exército Vermelho, David Dushman tinha 21 anos quando avançou com um tanque T-34 contra a alta cerca de arame farpado e eletrificado do campo de concentração

Melissa Eddy, The New York Times, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2021 | 21h36

BERLIM - David Dushman, conhecido como o último libertador do campo de concentração de Auschwitz ainda vivo, morreu neste sábado, 5, aos 98 anos. Sua morte foi confirmada por um comunicado emitido no domingo pela comunidade judaica de Munique. A causa não foi informada.

“Cada testemunha da história que nos deixa é uma perda, mas a passagem de David Dushman é particularmente dolorosa”, afirmou no comunicado Charlotte Knobloch, presidente da principal entidade judaica de Munique.

À época soldado do Exército Vermelho, Dushman ficou conhecido por ter avançado com um tanque T-34 contra a alta cerca de arame farpado e eletrificado que protegia o campo de extermínio de Auschwitz, na Polônia ocupada pelos nazistas, no dia 27 de janeiro de 1945.

Dushman contava ter se chocado com o que viu através do visor de seu tanque, ao entrar em Auschwitz, mesmo após anos de batalhas sangrentas da Segunda Guerra. “Havia esqueletos por todo o lugar. Os prisioneiros saíam cambaleantes dos alojamentos, sentados e deitados entre os mortos”, disse ele ao jornal alemão Süddeutsche Zeitung, em 2015. “Foi horripilante. Jogamos para eles todas as nossas latas de comida e avançamos rápido para caçar os fascistas.”

Quando chegou a Auschwitz, Dushman já havia sobrevivido a duas das mais sangrentas batalhas do front oriental da guerra, em Stalingrado e Kursk. Ele foi ferido três vezes ao longo da guerra. E afirmava que foi um dos 69 sobreviventes de sua divisão, de 12 mil homens.

Somente depois da guerra, porém, ele começou a entender o que tinha visto no campo de extermínio. “Para ser sincero, nós não sabíamos praticamente nada a respeito de Auschwitz”, contou ao jornal.

Mais de 1,1 milhão de homens, mulheres e crianças foram assassinados no campo, que foi construído em 1940 nos subúrbios de Oswiecim, uma cidade polonesa anexada pelos nazistas. Mais de 6 milhões de judeus foram assassinados durante o Holocausto. 

A certidão de nascimento de Dushman declarava que ele nasceu em Minsk, em 1.º de abril de 1923, mas ele sustentava que seu local verdadeiro de nascimento era a cidade portuária de Danzig, agora Gdansk, na Polônia. Ele afirmava que sua mãe, Bonislava, havia alterado a localidade por razões políticas. O pai de Dushman, Alexander, médico do Exército Soviético e herói da Revolução, desentendeu-se com Josef Stalin, o líder soviético, e foi mandado em 1938 para um gulag na Sibéria, onde morreu em 1949.

Depois da guerra, Dushman estudou medicina em Moscou por amor à mãe, uma pediatra cujo desejo era que o filho continuasse com a tradição da família na medicina. Mas a paixão de Dushman era a esgrima e, depois da faculdade, ele se dedicou ao esporte.

Dushman se tornou o principal esgrimista da União Soviética em 1951 e atuou como treinador do clube esportivo de elite Spartak Moscou entre 1952 e 1988. Ele também treinou o time nacional feminino de esgrima da União Soviética. Depois de completar 90 anos, Dushman ia de metrô três vezes por semana a um clube de Munique praticar o esporte.

Foi casado com Zoja por 60 anos e, já que o casal não teve filhos, passou a considerar os jovens que treinava sua família.

A mulher de Dushman morreu em 2011, em casa, em Munique, para onde eles emigraram em 1996. Não há informação sobre parentes do casal.

Na Olimpíada de Munique, em 1972, a equipe de Dushman conquistou duas medalhas de ouro, duas de prata e três de bronze. Mas as vitórias foram ofuscadas pelo ataque contra os atletas israelenses, que estavam hospedados do outro lado da rua do alojamento dos soviéticos na Vila Olímpica.“Ouvimos tiros e o ruído de helicópteros voando”, recordou-se posteriormente. “Nós e todos os outros atletas ficamos chocados.”

Uma década depois, durante um mundial de esgrima, o florete de um esgrimista alemão se partiu e estocou fatalmente o olho de seu oponente soviético. Quando o atleta alemão, Matthias Behr, caiu em lágrimas, horrorizado, Dushman se aproximou rapidamente com palavras de conforto.“Não foi sua culpa”, disse ele a Behr. “Um acidente como este é vontade de Deus.”

Thomas Bach, atual presidente do Comitê Olímpico Internacional, lembra-se da época em que era ainda um esgrimista novato, representando a Alemanha Ocidental, nos anos 1970, quando Dushman ficou seu amigo e lhe ofereceu conselhos, episódio que ele recordou como “um profundo gesto de humanidade que eu nunca esquecerei”.

Em 2015, Bach convidou o ex-treinador para visitar a sede do COI, em Lausanne, na Suíça, onde Dushman fez um apelo para que o comitê promovesse o esporte como um caminho para a paz.

“Meu maior sonho e desejo para as futuras gerações é viver num mundo em que não existam guerras”, afirmou Dushman durante a visita. “Peço que Thomas Bach e o COI façam tudo o que puderem para espalhar paz e reconciliação pelo mundo. Guerras não deveriam mais ocorrer.” /Tradução de Augusto Calil

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