REUTERS/Jacky Naegelen
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Morre Ben Ali, ditador da Tunísia e primeiro a ser deposto pela Primavera Árabe 

Ex-presidente e sua família vivam na Arábia Saudita fugiram da cidade de Túnis, capital do país, em 14 de janeiro de 2011, para a Arábia Saudita, depois de semanas de protestos

Adam Bernstein / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2019 | 20h03

RIAD - Morreu nesta quinta-feira, 19, aos 83 anos em Riad, na Arábia Saudita, Zine el-Abidine Ben Ali, o déspota tunisino destituído em 2011 após uma revolta popular que ficou conhecida como Primavera Árabe e ricocheteou no Norte da África e no Oriente Médio. Seu advogado, Mounir Ben Salha, confirmou sua morte. Ben Ali estava sendo submetido a um tratamento contra câncer de próstata.

O ex-presidente e sua família fugiram da cidade de Túnis, capital do país, em 14 de janeiro de 2011, para a Arábia Saudita, depois de semanas de protestos contra o elevado desemprego, aumento dos preços dos alimentos, a corrupção e a repressão política.

As forças de segurança, empunhando metralhadoras e cacetetes, não conseguiram repelir milhares de manifestantes pacíficos que inundaram as amplas avenidas da capital. A falta de apoio a Ben Ali pelo Exército tunisino, que se recusou a disparar contra os cidadãos, foi um fator crucial em sua queda.

Sua deposição, depois de mais de 23 anos como presidente, foi amplamente creditada como um momento transformador na região e gerou uma onda de fervor revolucionário pelas ruas do Egito, Bahrein, Irã, Líbia e Jordânia. Incapaz de deter os protestos contra o governo, os presidentes egípcio Hosni Mubarak e líbio Muamar Kadafi foram forçados a deixar o cargo.

O governo de Ben Ali foi considerado um dos mais brutais da região, segundo a Anistia Internacional e outros especialistas.

Noureddine Jebnoun, um estudioso nascido na Tunísia, especializado em Oriente Médio e Norte da África na Universidade de Georgetown, disse em uma entrevista de 2012 que Ben Ali incentivou um “estado criminoso” com desprezo pelos direitos humanos e um inflado aparato de segurança.

O regime, disse Jebnoun, “foi caracterizado por inúmeras violações dos direitos humanos, total falta de liberdade de imprensa e sem liberdade de associação e exibia apenas a fachada mais simples do pluralismo político".

O segundo líder da Tunísia desde a independência da França

Ben Ali, um homem corpulento, de cabelos escuros e postura severa, foi o segundo líder da Tunísia desde a independência da França, em 1956.

Ele ocupava o posto de general, mas nunca teve o comando operacional que lhe valeria lealdade dos militares quase independentes, disse Jebnoun. Ele ocupou várias pastas na defesa e na diplomacia ao longo dos anos, mas como fundador da agência de segurança militar da Tunísia, sua principal tarefa era espionar os compatriotas.

O ocidente industrializado cumprimentou Ben Ali como salvador quando, seis semanas depois de assumir o cargo de primeiro-ministro, liderou um golpe sem violência que derrubou o presidente Habib Bourguiba em novembro de 1987. 

Bourguiba, advogado e herói da resistência anticolonial, governou o país de acordo com o Ocidente, mas seu comportamento irregular minou seu apoio político.

Naquela época, Ben Ali declarou essencialmente que Bourguiba estava senil e conduziu o ex-presidente considerado vitalício, que tinha cerca de 80 anos, à aposentadoria.

Embora Ben Ali fosse muito conhecido por suas violentas repressões e prisões em massa de ameaças supostamente vindas do governo de Bourguiba, ele supervisionou uma breve liberalização das leis repressivas de seu país e derrubou o culto à personalidade que Bourguiba havia incentivado.

A Tunísia, um pequeno país mediterrâneo espremido entre os vizinhos ricos em petróleo, Argélia e Líbia, continuou sendo o destino de inverno preferido dos europeus ricos e se alinhou com o Ocidente na luta contra o terrorismo islâmico.

No entanto, o verniz de uma república - no que na realidade era um estado autoritário com um brilho secular e um raro grau de liberdade para as mulheres - continuou sendo despojado por Ben Ali.

“A liberdade de expressão, associação e reunião permaneceu severamente restrita”, escreveu a Anistia Internacionalem 2010. “Críticos do governo, incluindo jornalistas, defensores dos direitos humanos e ativistas estudantis, foram perseguidos, ameaçados e processados. Centenas de pessoas foram condenadas após julgamentos injustos relacionados a terrorismo. Torturas e outros maus-tratos continuaram a ser relatados, e os prisioneiros eram submetidos a condições severas de prisão. Pelo menos duas sentenças de morte foram impostas, mas o governo manteve uma moratória sobre as execuções."

Ben Ali manteve um forte controle sobre os serviços de inteligência e apoderou-se de uma fatia enorme da economia para ganhos pessoais. Ele alterou a Constituição para contornar o limite de três mandatos na presidência e permanecer no cargo por toda a vida. Foi eleito para um quinto mandato em 2009, recebendo cerca de 90% dos votos.

Sua abordagem, disse Jebnoun, era “aterrorizar tunisianos, dizendo a eles que ‘sou eu ou o vácuo, sou eu ou os islamitas’”.

Embora Ben Ali se apresentasse como um defensor do investimento estrangeiro e do comércio gerado pelo turismo, o crescimento econômico na Tunísia era desigual. A pobreza e o desespero eram particularmente predominantes no interior do país.

Sua reputação foi ainda mais manchada pelos excessos pessoais de sua família. A segunda mulher do presidente, Leila Trabelsi, era 20 anos mais nova, e sua adoção de um estilo de vida luxuoso lhe valeu a comparação de “a Imelda Marcos (ex-primeira-dama das Filipinas conhecida pelas extravagâncias) do mundo árabe”.

Os Trabelsi se infiltraram na vida econômica do país e se tornaram guardiões de quem quisesse fazer negócios na Tunísia. “Aparentemente, metade da comunidade empresarial tunisina pode obter uma conexão com Ben Ali pelo casamento”, escreveu o então embaixador dos EUA, Robert F. Godec, em um telegrama de 2008 divulgado pelo grupo WikiLeaks.

O genro de Ben Ali, empresário Mohammad Sakher el-Materi, foi alvo de investigações públicas depois que o WikiLeaks publicou telegramas diplomáticos que descreviam um jantar em seu complexo à beira-mar que incluía sorvete enviado da França e um tigre de estimação  devorador de galinhas chamado Pasha que ele mantinha em uma gaiola.

Cada vez mais, o consumo exagerado das famílias Ben Ali e Trabelsi trouxe um grande alívio aos poucos privilegiados no poder e privações à grande maioria dos tunisianos.

A crescente violência no fim de 2010 rapidamente passou de um movimento de comunidades pobres e da classe trabalhadora - simbolizadas por um comerciante de vegetais com ensino médio que ateou fogo a si mesmo para protestar contra as políticas do governo - até incluir uma classe profissional que se cansara do domínio de um único homem.

Acumulou poderes após ascender em cargos de segurança nacional  

Zine el-Abidine Ben Ali nasceu em 3 de setembro de 1936, em Hammam Sousse, uma cidade na costa do norte da Tunísia, que era então um protetorado francês.

Sua primeira mulher, Naima Kefi, era filha de um general do Exército tunisino que ocupava uma alta posição no governo pós-independência. Ben Ali estudou na prestigiada Academia Militar Saint-Cyr, na França, e passou por treinamento adicional em segurança e inteligência nos Estados Unidos.

Ele chefiou a segurança militar da Tunísia de 1964 a 1974, depois foi enviado ao Marrocos como adido militar e à Polônia como embaixador antes de ascender a empregos na segurança nacional, cada vez com mais poderes. Ele ajudou a liderar as repressões em 1978 contra grupos de trabalhadores e em 1984 em tumultos devido aos aumentos em preços dos alimentos e outras medidas de austeridade.

Ele se divorciou de sua primeira mulher no início dos anos 90 e se casou com sua amante de longa data.

Em meados de dezembro de 2010, os protestos por falta de emprego logo deram lugar a tumultos em larga escala em Túnis e em outras cidades, que as autoridades tentaram reprimir com o aumento da violência. Mais de 200 pessoas morreram em confrontos, que Ben Ali atribuiu a radicais e extremistas islâmicos que tentavam espalhar o caos.

Embora as forças de segurança internas disparassem contra os manifestantes, o chefe do estado-maior militar se recusou, enviando um sinal claro de que os dias de Ben Ali estavam contados. A União Europeia disse que congelara ativos controlados pelo ex-líder e sua família. O governo tunisino também emitiu um mandado de prisão internacional para Ben Ali e membros de sua família por acusações de corrupção envolvendo dinheiro e bens ilícitos. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOSSO 

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