EFE/Leonardo Muñoz/ARCHIVO
EFE/Leonardo Muñoz/ARCHIVO

Morre Betancur, o ex-presidente que governou a Colômbia em plena turbulência

O político conservador, de 95 anos, governou entre 1982 e 1986 e enfrentou a tomada do Palácio de Justiça em pleno centro da capital pela extinta guerrilha M-19, que deixou 99 mortos

O Estado de S.Paulo

07 Dezembro 2018 | 22h07

BOGOTÁ - O ex-presidente colombiano Belisario Betancur (1982-1986), que enfrentou um dos períodos mais turbulentos do século 20 devido ao conflito armado em seu país, morreu nesta sexta-feira, 7, aos 95 anos.

"Lamento profundamente a morte de um grande amigo, um grande colombiano, o ex-presidente Belisario Betancur. Seu legado na política, na nossa história, na cultura é um exemplo para todas as gerações futuras", escreveu o presidente Iván Duque no Twitter.

Betancur estava internado no hospital Fundação Santa Fé por um problema renal e  morreu às 14h32 locais (18h32 de Brasília), informou o hospital em comunicado.

A vice-presidente, Marta Lucía Ramírez, o havia dado como morto por engano em uma declaração na quinta-feira. A informação foi replicada por vários meios de comunicação e desatou uma série de reações. Minutos depois foi retificada.

Segredos

O político conservador, que governou entre 1982 e 1986, enfrentou a tomada do Palácio de Justiça em pleno centro da capital pela extinta guerrilha Movimento 19 de Abril (M-19) - que deixou 99 mortos-, o auge do narcotráfico e de movimentos subversivos em todo o país.

Além disso, esteve no comando quando houve a avalanche causada pelo degelo de um vulcão coberto de neve que matou 25 mil habitantes da população andina de Armero (centro).

Em meio às dificuldades, foi o primeiro presidente a convocar ao diálogo as organizações rebeldes surgidas nos anos 60 e assegurava que selar "a paz do país" era esse "algo" que gostaria de ter feito.

Como ex-presidente, Betancur manteve um perfil discreto e manteve silêncio sobre os principais episódios da história do conflito armado colombiano, como o papel dos militares na ruptura da trégua assinada com o M19 em 1984 e o desaparecimento de 12 civis durante a retomada do Palácio de Justiça em 1985.

Contrário à tradição dos ex-presidentes colombianos, Betancur se retirou da arena política para se dedicar à poesia. 

"Morreu #Belisario Betancurt, 32 anos depois de os primeiros acordos entre seu governo e as FARC-EP foi alcançado um Acordo Final em Havana. Também leva segredos sobre a tomada do Palácio de Justiça e a avalanche de Armero", escreveu no Twitter Sandra Ramírez, senadora do atual partido político Farc e parceira do guerrilheiro Manuel Marulanda, morto em 2008.

Foram necessários 30 anos, além da morte de muitas pessoas, antes que as Farc depusessem as armas em 2016 durante o governo do liberal Juan Manuel Santos.

Intenções de paz

Depois de saber a notícia da morte, diferentes personalidades do país recordaram o ex-presidente por suas contribuições à paz. 

O ex-presidente e Nobel da Paz Juan Manuel Santos enviou as suas condolências por meio de uma declaração. "Grande patriota, grande amigo e grande exemplo de caráter, honestidade e humildade (...) A Colômbia, agradecida, o recordará para sempre", escreveu Santos. 

O líder opositor de esquerda Gustavo Petro, que militou na ex-guerrilha M-19, combatida pelo governo de Belisario Betancur, recordou o frustrado processo de paz empreendido pelo ex-presidente. 

"Estive na Praça de Bolívar no dia da sua posse. Era do M-19 e tinha 22 anos. Levantava um cartaz que dizia 'Paz' e tinha muitos sonhos. Quando acabou o seu governo, eu estava preso e havia sido torturado. A paz não havia sido mais que um desenho na parede", sentenciou./AFP

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