Morre ex-chefe de inteligência do Egito

Omar Suleiman, aliado da CIA na guerra contra o terror, foi um poderoso personagem do regime de Hosni Mubarak

CAIRO, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2012 | 03h01

Omar Suleiman, ex-chefe do serviço de inteligência do Egito que encenou a última tentativa do velho regime de conservar o poder, morreu em um hospital nos EUA na noite de quarta-feira. Críticos egípcios consideraram emblemático o fato de ele ter morrido em território americano, em razão de sua forte ligação com a CIA, à qual ajudou em casos de extradições irregulares e de tortura de suspeitos de terrorismo.

"Quando a CIA perguntou a Suleiman se ele poderia fornecer uma amostra do DNA do irmão do líder da Al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri, ele se ofereceu para enviar o braço inteiro dele", disse Ron Suskind, autor de The One Percent Doctrine (A doutrina do um por cento, em tradução literal).

Já os seguidores de Suleiman lamentaram a perda de um pilar da velha ordem, que poderia servir de amortecedor entre o regime militar, de um lado, e o domínio islâmico, do outro.

Em 18 anos à frente dos poderosos Serviços Gerais de Inteligência, Suleiman tornou-se o mais poderoso chefe de espionagem do Oriente Médio. Ele era mencionado como a "caixa-preta" do antigo regime. Sua insistência para que Hosni Mubarak usasse um carro blindado durante visita à Etiópia, em 1995, teria salvo o líder da bala de um assassino.

Quando Mubarak se viu acossado pelos pedidos de renúncia, recorreu a Suleiman para chefiar as negociações com seus opositores. Mais tarde, ele o nomeou vice-presidente, em um último esforço para se manter no poder. A medida foi ridicularizada pelos dissidentes e, em 11 de fevereiro de 2011, Suleiman anunciou que Mubarak estava entregando o poder aos militares.

Suleiman foi o primeiro chefe do da inteligência cuja identidade ficou publicamente conhecida. Ele teve papel crucial nos esforços egípcios para conseguir uma reconciliação entre os palestinos de Hamas e Fatah, embora os documentos divulgados pelo WikiLeaks tenham mostrado que ele havia trabalhado com os israelenses para rejeitar a vitória eleitoral do Hamas em Gaza, por considerar o grupo como uma extensão da Irmandade Muçulmana, perseguida no Egito.

"Acredito que muitos segredos morreram com ele", disse Nabil Fahmy, o ex-embaixador do Egito nos EUA. "Ele tinha uma habilidade ímpar de estar numa posição muito delicada, de chefe da inteligência, mas, ao mesmo tempo, de preservar o respeito que as pessoas lhe tinham. Era um profissional."

Suskind tem uma visão mais crítica. "Havia certas coisas que os americanos precisavam que fossem feitas e Suleiman era o nosso quebra-galho. Ele fazia coisas que nós mesmos não queríamos fazer. E nós acabamos descobrindo que tudo veio à tona."

Durante o mandato de Suleiman, sua agência foi acusada de envolvimento na tortura de dissidentes. Ele era um firme adversário da Irmandade Muçulmana e um arquiteto do longo banimento da organização, que terminou com a vitória do grupo nas eleições presidenciais deste ano. Ele também esteve envolvido no programa de extradições irregulares da CIA, em que suspeitos de terrorismo eram enviados a países onde poderiam ser torturados.

Os discursos públicos de Suleiman durante a revolução na Praça Tahrir, denunciando os manifestantes como agentes de governos estrangeiros e afirmando que o Egito não estava preparado para a democracia, desgastaram sua imagem.

Na condição de ex-general das Forças Armadas egípcias, Suleiman teria direito a um enterro com honras militares, mas alguns críticos no Cairo são contra. Isso colocaria o novo presidente do Egito numa situação incômoda, já que ele teria de participar da cerimônia.

"Ele tem direito a um funeral militar por lei e eu respeito isso, mas não creio que ele o mereça", disse Hisham Kassem, analista político. "Trata-se de um homem que passou 18 anos garantindo que o Egito não seguisse o caminho da democracia."

Mesmo assim, muitos egípcios moderados apoiaram Suleiman e, em seguida, o vice-premiê de Mubarak, Ahmed Shafik, como uma alternativa à liderança islâmica. "Para egípcios favoráveis à revolução, ele era o cérebro por trás da sobrevivência do regime e um brutal torturador e assassino", disse Omar Ashour, pesquisador do Brookings Doha Center. "Para os aliados de Mubarak, era uma fonte de estabilidade e um baluarte contra o avanço islâmico."

Ninguém sabia que Suleiman estava doente ou que estivesse nos EUA para se tratar. Por isso, a notícia foi uma surpresa. A Reuters disse que ele morreu subitamente, "enquanto se submetia a exames médicos". O jornal egípcio Al-Ahram disse que ele morreu num hospital em Cleveland, Ohio. Até agora, não há nenhum indício da causa da morte. / NYT

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