Morre ex-ditador indonésio Suharto

Internado desde o dia 4, ex-líder sofreu falência múltipla dos órgãos

Marilyn Berger, THE NEW YORK TIMES, O Estadao de S.Paulo

28 de janeiro de 2008 | 00h00

O ex-presidente da Indonésia Suharto, cujos 32 anos de ditadura foram os mais brutais e corruptos do século 20, morreu ontem em Jacarta, aos 86 anos. Ele foi hospitalizado em 4 de janeiro com problemas respiratórios, renais e cardíacos. Segundo os médicos, Suharto ficou inconsciente e deixou de respirar naturalmente no fim de semana. O ex-presidente não resistiu e morreu de falência múltipla dos órgãos.Suharto foi deposto em 1998, diante de distúrbios generalizados e caos político no país. No entanto, seu governo foi marcado por algumas realizações: ele conduziu a Indonésia à estabilidade e promoveu o crescimento econômico. Esses sucessos, porém, foram ofuscados no final pela onipresente e imensa corrupção dentro de seu governo, pelo regime militarizado e repressivo e o violento banho de sangue que se seguiu quando ele assumiu o poder no final dos anos 60, com a morte de pelo menos 500 mil pessoas.Como líder de um dos mais populosos países do mundo, Suharto e sua família ficaram famosos pelo controle mantido sobre as empresas estatais, a cobrança de propinas em contratos do governo, o desvio de dinheiro das instituições de caridade do Estado e a violação dos direitos humanos. Suharto, porém, permaneceu quase intocável até o fim. Ele nunca foi acusado pelos assassinatos perpetrados sob seu comando e conseguiu escapar dos processos criminais abertos contra ele pelo desvio de fundos públicos de milhões - possivelmente bilhões - de dólares, tendo-se declarado mentalmente incapaz para enfrentar um julgamento (leia mais no box ao lado).Como Sukarno, seu antecessor, Suharto empenhou-se para uma união nacional, num país dividido de 200 milhões de pessoas, abrangendo 300 grupos étnicos falando 250 idiomas. Sukarno também tinha sido derrubado numa onda de violência que tomou conta do país em 1965, após um ataque que foi descrito como um golpe de esquerda fracassado. Suharto, um dos poucos oficiais militares do alto escalão a escapar no primeiro dia dessa revolta, enfrentou decisivamente os insurgentes e assumiu o controle do país, em 1968.Nos anos seguintes, Suharto governou usando a repressão militar e restaurou a ordem no país, que atravessou uma era de substancial desenvolvimento. Muitos indonésios beneficiaram-se de seus programas, mas ninguém se aproveitou mais do que os membros de sua família, que ficaram bilionários. No ano passado, Suharto encabeçou uma lista de lideres mundiais que roubaram os cofres públicos de seus países. De acordo com a lista, realizada pela ONU e o Banco Mundial, ele se apropriou indevidamente de US$ 15 bilhões a US$ 35 bilhões.Quando os Estados Unidos se engajaram no Vietnã, ele foi o bastião contra o comunismo na Ásia. Os EUA o recompensaram com um programa de ajuda externa que chegou a mais de US$ 4 bilhões ao ano. Além disso, um consórcio de países ocidentais e o Japão estabeleceram um programa de apoio que só em 1997 totalizou quase US$ 5 bilhões. Muitos indonésios também apoiaram Suharto enquanto o país prosperava, mas a crise econômica asiática, em 1997, levou a economia do país à beira do colapso. A moeda perdeu 30% de seu valor, o desemprego aumentou e a crescente desigualdade de renda dentro da população provocaram distúrbios e violência. Suharto pediu ajuda ao Fundo Monetário Internacional, que concordou com um pacote de ajuda de US$ 43 bilhões. Muitos viram a hesitação de Suharto em assinar o acordo como um esforço para proteger a fortuna de sua família e de amigos. Acredita-se que o dinheiro foi desviado para bancos estrangeiros.CRONOLOGIA 1921 - Nasce em Kemusuk, perto da cidade real de Yogyakarta 1940 - Ingressa no Exército colonial holandês como cabo e depois no Exército indonésio 1962 - Lidera operação militar para controlar Papua Ocidental 1965 - Lidera repressão contra rebelião militar que acusa de comunista 1966 - Presidente Sukarno lhe transfere o poder. Lidera repressão que mata até milhares de comunistas, sindicalistas e outros membros da esquerda durante os próximos quatro anos 1968 - É eleito indiretamente para a presidência 1975 - Indonésia invade Timor Leste e o anexa como Província 1997 - Crise econômica atinge a Ásia; Indonésia recorre ao FMI 1998 - Renuncia após protestos contra sua reeleição à presidência. Mortos chegam a 1.200 2000 - Acusado de corrupção, não comparece à Justiça 2005 - Internado com problemas respiratórios e intestinais 2008 - Morre após 23 dias de internação hospitalar

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