Matilde Campodonico/AP
Matilde Campodonico/AP

Multidão se despede de ex-presidente uruguaio Tabaré Vázquez

Proeminente figura da esquerda latino-americana morreu na madrugada deste domingo, 6, aos 80 anos, em decorrência de um câncer de pulmão, detectado no ano passado

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2020 | 08h01
Atualizado 06 de dezembro de 2020 | 17h28

MONTEVIDÉU - Milhares de uruguaios foram às ruas de Montevidéu para se despedir do ex-presidente uruguaio Tabaré Vázquez (2005-2010 e 2015-2020), proeminente figura da esquerda latino-americana, que morreu na madrugada deste domingo, 6, aos 80 anos, em decorrência de um câncer de pulmão. A doença foi detectada em agosto de 2019, quando ele ainda exercia seu segundo mandato como presidente do país. 

A informação de sua morte foi dada inicialmente pelo seu partido, Frente Ampla (FA), no Twitter. "Seu exemplo de integridade política e compromisso inabalável com nosso país e povo, nos levará a continuar seu legado", escreveram. 

Na mesma rede social seu filho, Alvaro Vázquez, confirmou: "Hoje, às 3 horas, enquanto descansava em casa, acompanhado de alguns parentes e amigos, por causa de sua doença, Tabaré faleceu. Em nome da família, queremos agradecer a todos os uruguaios pelo carinho recebido por ele ao longo de tantos anos". 

Vázquez foi o primeiro presidente de esquerda do país, representando a Frente Ampla, cargo que ocupou entre 2005 e 2010, e depois serviu outro mandato entre 2015 e 2020. Ele deixou o cargo de presidente em março deste ano, quando foi substituído por Luis Lacalle Pou, do Partido Liberal, vencedor das eleições do ano passado. 

O atual presidente lamentou a morte de Vázquez em seu Twitter. "Ele enfrentou sua última batalha com coragem e serenidade. Tivemos casos de diálogo pessoal e político que eu valorizo e lembrarei. Serviu seu país e com base nos esforços feitos conquistas importantes. Ele era o presidente dos uruguaios. O país está de luto", escreveu.

Em comunicado, os parentes de Vázquez indicaram que, seguindo os protocolos da pandemia do coronavírus, decidiram não realizar o velório. 

Após cerca de uma hora de trajeto, o cortejo, que partiu do centro da capital, chegou ao Cemitério de La Teja, bairro natal do ex-presidente, onde a família fez uma breve homenagem. O corpo de Vázquez foi enterrado sob aplausos de seu círculo mais próximo de parentes e amigos.

Luta contra tabagismo

O presidente foi reconhecido e premiado por sua luta contra o tabagismo e conseguiu tornar o Uruguai o primeiro país livre de fumaça de tabaco na América Latina, em 2006, e o quinto do mundo, ao proibir fumar em espaços públicos fechados.

O câncer marcou profundamente a vida de Vázquez. Na década de 60, ele perdeu a mãe, o pai e a irmã, todos vítimas da doença. Nos 70, Vázquez ingressou no Serviço de Radioterapia da Faculdade de Medicina. A partir de então, dedicou sua vida à oncologia.

Apesar de já ter sido fumante, Vázquez não fumava há mais de 50 anos e se tornou um crítico do tabaco. No primeiro mandato como presidente, em 2008, aprovou a lei que proíbe o fumo em locais fechados e impôs restrições mais severas à publicidade de cigarros. Em 2011, ele publicou um livro intitulado Crônicas de um Mal Amigo, em que aborda a doença.

Vázquez foi diagnosticado em agosto de 2019 com câncer de pulmão, quando ainda era presidente, um mês após perder a mulher, María Auxiliadora Delgado, de quem foi companheiro por mais de 50 anos. "Quero ser lembrado como um presidente sério e responsável", disse no programa El Legado, do Canal 10, exibido há uma semana.

Homenagens

Oncologista e ex-dirigente do clube de futebol local Progreso, foi o primeiro candidato da coalizão de esquerda Frente Ampla a se tornar prefeito de Montevidéu em 1989, e chegar à presidência - após duas tentativas frustradas - em 2005, quebrando com a hegemonia dos tradicionais Partido Colorado e do Partido Nacional.

Vários líderes da região destacaram nas redes sociais a honestidade de Vázquez e seu compromisso com a inclusão. No Uruguai, multiplicaram-se as despedidas e condolências de autoridades de todo o espectro político. Milhares de pessoas a pé ou em seus veículos uniram-se ao cortejo fúnebre agitando bandeiras do Uruguai e da FA.

A FA pediu aos uruguaios que, às 21h, "abram as portas e janelas de suas casas e coloquem para tocar o texto de Mario Benedetti transformado em música por Joan Manuel Serrat Defender la Alegría  e, em seguida, aplaudam por cinco minutos". /AFP e EFE 

 

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