Morre francês que deu aula de tortura no Brasil

Veterano da Argélia, general Paul Aussaresses foi adido militar no País e ajudou a espalhar 'doutrina francesa' de contrainsurgência

PARIS, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2013 | 02h09

O general francês Paul Aussaresses, que defendeu abertamente o recurso da tortura na Guerra da Argélia (1954-1962) e foi acusado de treinar militares latino-americanos, morreu na terça-feira, aos 95 anos. Sua morte foi anunciada ontem pela associação de ex-paraquedistas Qui ose gagne (Quem ousa ganha) e confirmada pouco depois por sua mulher, Elvira.

Aussaresses, que serviu como adido militar da França no Brasil durante o governo do general Ernesto Geisel (1974-1979), morreu numa casa de repouso na qual ingressara após uma hospitalização, segundo sua mulher.

Nos anos 60, o general francês havia ensinado no campo dos boinas verdes de Fort Bragg, no Estado americano da Carolina do Norte, "as técnicas da batalha de Argel" relativas especialmente à tortura. Em 1973, durante a ditadura militar brasileira, ele foi nomeado adido militar na embaixada francesa em Brasília.

O general chileno Manuel Contreras - fundador da Dina, a polícia política do regime de Augusto Pinochet - atribuiu a Aussaresse o treinamento, no Brasil, de oficiais do Chile e de outros países latino-americanos. As declarações de Contreras foram registradas no documentário Esquadrões da morte, a escola francesa, da cineasta Marie-Monique Robin. O funeral de Aussaresses foi marcado para a terça-feira em La Vancelle, povoado do leste da França onde ele vivia, segundo a associação de ex-paraquedistas.

O general, que comandou os serviços de inteligência franceses em Argel durante a guerra, foi condenado por apologia à tortura no fim de um longo processo na França. Em 2001, o oficial tinha admitido em seu livro Services spéciaux, Algerie 1955-1957 (Serviços especiais, Argélia 1955-1957) que havia praticado tortura, afirmando que o procedimento era "tolerado, quando não recomendado" pelos políticos de seu país. Em 2004, ele foi condenado pela Justiça francesa.

O general sustentava que a tortura "torna-se legítima quando a urgência se impõe". "Era raro que os presos interrogados durante a noite continuassem vivos ao amanhecer. Falassem ou não, eles (os detentos) eram geralmente neutralizados", acrescentou.

Repercussão. Suas confissões nos anos 2000, acompanhadas de uma entrevista, provocaram uma tempestade política na França, onde o então presidente Jacques Chirac, que serviu como tenente na Argélia, declarou-se "horrorizado" pelas declarações.

A advogada Gisèle Halimi - que denunciou as torturas de Aussaresses e defendeu militantes argelinos pró-independência - afirmou ontem que o general "lamentava" não tê-la assassinado. Segundo a ativista, o militar "torturou e teorizou a tortura". "(Aussaresses) encarnou a falsa ideia de que a tortura é um meio legítimo e eficaz de para lutar contra o terrorismo", afirmou Jean-Etienne de Linares, da ONG Ação dos Cristãos pela Abolição da Tortura.

Nascido em 7 de novembro de 1918 em Saint Paul Cap de Joux, no sudoeste da França, Aussaresses foi a Londres para se alistar nos serviços secretos franceses em 1941, quando nazistas ocupavam seu país. Participou da criação do braço da inteligência francesa no exterior e serviu em seguida nas forças francesas na Indochina, como chefe de um batalhão de paraquedistas.

Em 1957, Aussaresses recebeu ordens para restabelecer a ordem em Argel - onde o general dirigiu o que ele mesmo chamou de "um esquadrão da morte", encarregado de fazer detenções noturnas, seguidas de torturas e eventuais assassinatos. Mais tarde, lecionou em Fort Bragg, antes de assumir, em 1966, o comando do 1.º Regimento de Caçadores Paraquedistas.

"A tortura me causou problemas? Digo que não. Habituei-me a tudo aquilo", afirmou o general, no início dos anos 2000. Aussaresses sempre sustentou que suas ações tiveram o aval de seus superiores hierárquicos e das autoridades políticas. / FRANCE PRESSE

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.