Gary Cameron/REUTERS
Gary Cameron/REUTERS

Morre John Lewis, deputado e pioneiro no ativismo dos direitos civis nos EUA

Última aparição do congressista foi em junho, quando visitou a praça Black Lives Matter, em Washington, em meio a protestos antirracistas no país

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2020 | 02h11
Atualizado 21 de julho de 2020 | 10h30

WASHINGTON - John Lewis, o pacifista defensor dos direitos civis dos negros que marchou com Martin Luther King Jr e foi congressista durante décadas, morreu aos 80 anos, anunciou nesta sexta-feira, 17, a Câmara dos Deputados dos Estados Unidos.

Este ícone afro-americano travou uma batalha ao longo da vida contra a discriminação racial e a injustiça, sendo espancado pela polícia e preso repetidamente durante protestos contra genocídios e leis sobre a imigração.

"Hoje, os Estados Unidos choram a perda de um dos maiores heróis de sua história", declarou a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, em nota.

Pelosi descreveu Lewis, que não resistiu a um câncer de pâncreas, como "um titã do movimento dos direitos civis cuja bondade, fé e valentia transformaram nossa nação".

Filho de meeiros, Lewis aos 21 anos foi um dos mais jovens fundadores do movimento "Passageiros da Liberdade", que lutou contra a segregação racial no sistema de transporte público dos EUA no início dos anos 60, e se tornou uma das vozes mais poderosas da defesa da justiça e da igualdade.

Também confrontou o presidente Donald Trump, boicotando sua posse e ressaltando a interferência russa nas eleições de 2016 para questionar sua legitimidade.

Quando a Câmara votou em dezembro de 2019 o impeachment do presidente, as palavras de Lewis se destacaram das demais: "Quando você vê algo errado, injusto, você tem a obrigação moral de dizer alguma coisa, de fazer alguma coisa. Nossos filhos e netos vão perguntar 'O que você fez? O que você disse?' Para alguns, esse voto pode ser difícil. Mas temos a missão de estar do lado certo da história."

Em entrevista ao programa CBS This Morning, em junho, Lewis disse que o vídeo que mostra George Floyd sendo asfixiado por mais de oito minutos "foi tão doloroso que me fez chorar". Ele disse ainda: "as pessoas agora entendem sobre o que é a luta. É um outro passo em uma jornada muito, muito longa em direção à liberdade e justiça para toda a humanidade".

Para Entender

O caso George Floyd

Homem negro de 46 anos foi morto por policial branco durante abordagem; desencadeados pelo assassinato, protestos contra o racismo e a violência policial eclodiram nos EUA e no mundo

Lewis nasceu em Troy, Alabama, em 1940. Era o quarto de dez irmãos de uma família de camponeses e cresceu em uma comunidade totalmente negra, onde rapidamente sentiu a segregação pela cor de sua pele.

Ele foi o líder mais jovem da manifestação de 1963 em Washington, na qual Luther King proferiu seu histórico discurso I have a dream ("Eu tenho um sonho").

Dois anos depois, quase morreu em uma manifestação antirracista pacífica em Selma, Alabama, quando teve um crânio fraturado pela polícia. 

Aquele dia ficou conhecido como "Domingo Sangrento" e, exatamente meio século depois, caminhou de mãos dadas com Barack Obama, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, até o local do protesto emblemático.

Lewis entrou para o Congresso americano em 1986 e logo se tornou uma autoridade moral. Pelosi o considerava "a consciência do Congresso". Depois que sua morte foi tornada pública, as homenagens de democratas e republicanos não pararam.

O líder republicano do Senado, Mitch McConnell, observou que Lewis "não hesitou em arriscar sua vida para combater o racismo, promover direitos iguais e aproximar nossa nação dos princípios que a fundaram".

O presidente francês, Emmanuel Macron, também saudou, neste sábado, a memória do ativista. "Uma vida de combate pelos direitos civis. Uma vida de belas lutas, para lutar por um mundo mais justo. Muito progresso foi feito graças a ele. John Lewis era um herói", tuitou.

Lewis se afastou de seus deveres legislativos nos últimos meses para se concentrar no tratamento do câncer, mas no início de junho voltou a Washington em meio aos protestos pela morte de George Floyd.

"O vento está soprando, a grande mudança está chegando", disse Lewis em uma discussão com congressistas sobre o racismo.

"Poucos de nós vivemos para ver nosso próprio legado se desdobrar de maneira tão significativa e notável. John Lewis conseguiu", escreveu no Twitter Barack Obama, que em 2011 lhe concedeu a Medalha da Liberdade, a maior distinção civil dos Estados Unidos.

Outra figura icônica na luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, o reverendo CT Vivian, morreu na sexta-feira aos 95 anos. CT Vivian organizou protestos contra a segregação na década de 40 e foi um dos primeiros conselheiros de Martin Luther King. 

Bernice King, a filha mais nova de Martin Luther King, tuitou fotos dos dois falecidos com a menção "Dois de nossos maiores e agora de nossos ancestrais. Aleluia"./AFP e New York Times

 

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