Morre Kurt Waldheim, ex-nazista que foi secretário da ONU

Após revelação de seu passado, nos anos 80, austríaco foi isolado diplomaticamente

Agencia Estado

19 Junho 2007 | 11h05

Morreu nesta quinta-feira, 14, em Viena aos 88 anos Kurt Waldheim, ex-secretário-geral da ONU (1972 e 1981) e ex-presidente da Áustria (1986-1992), que ficou famoso pelas polêmicas lacunas sobre suas atuações durante a Segunda Guerra Mundial, quando serviu como oficial do Exército nazista. Estes vazios em sua biografia durante o regime nazista causaram um grande escândalo político, que fez com que, em 1987, o austríaco passasse a ser persona non grata para os Estados Unidos e outros países, após ter sido secretário-geral da ONU durante uma década. Entre os defensores de Waldheim estava o famoso caçador de nazistas Simon Wiesenthal, que praticamente o isentou, a partir de cuidadosas investigações, de qualquer crime de guerra nos Bálcãs e na Grécia, onde o ex-presidente austríaco atuou a partir de 1941. Os protestos internacionais e a oposição na Áustria não impediram que Waldheim fosse eleito chefe de Estado do país em 1985, com 54% dos votos, apesar das polêmicas geradas por seu papel durante a guerra. O ex-secretário-geral da ONU sempre alegou que não sabia dos crimes cometidos pelas tropas nazistas e só conseguiu ser provado que havia sido membro da Associação de Estudantes Nazistas e da organização paramilitar SA. ´Oportunista´ Uma das acusações que vieram à tona durante sua campanha eleitoral para a Presidência austríaca, apoiada pelo Partido Popular Austríaco (ÖVP), é que Waldheim foi, no mínimo, um oportunista. Esta característica, segundo historiadores, era compartilhada por muitos de seus compatriotas, que se consideravam mais vítimas que agressores do regime nazista. A discussão em torno do candidato Waldheim deu origem a um profundo exame de consciência sobre o papel da Áustria nos anos mais negros do século passado, principalmente em relação à anexação do pequeno país pela ofensiva militar alemã liderada por Adolf Hitler, que era austríaco. A famosa frase de Waldheim ("Eu só cumpri o meu dever") quando falava de sua atuação como oficial do Exército nazista parecia refletir a postura de grandes setores da Áustria. Estes segmentos não só não ofereceram uma resistência ativa às tropas de Hitler, mas aplaudiram com entusiasmo a chegada dos alemães ao país para resgatá-lo da miséria econômica e do desprestígio político. No plano internacional, o político conservador enfrentou um grande ataque de críticos dispostos a evitar que chegasse à chefia do Estado, um cargo simbólico e com pouca influência nas decisões políticas. Entre os adversários mais ferozes estavam o World Jewish Congress (WJC) e o Departamento de Justiça americano, que declarou Waldheim e sua mulher, Elisabeth, personas non grata nos Estados Unidos e os colocaram em uma lista negra, que ainda está em vigor. O WJC disse que o ex-secretário-geral da ONU foi um oficial de uma unidade do Exército alemão que enviou mais de 42 mil judeus gregos de Salônica aos campos de concentração e que foi responsável ainda pelo massacre de milhares de iugoslavos. Sua resposta a estas acusações, de que só tinha cumprido seu dever, deu origem a protestos internacionais. Na própria Áustria, Waldheim foi acusado de ser insensível a um passado que levou milhares de pessoas à morte. ONU Quanto ao caminho que percorreu para chegar ao cargo de secretário da ONU, já circularam em 21 anos várias teses, entre elas a de que a União Soviética conhecia bem seu passado e o usou para chantageá-lo. O atual presidente austríaco, Heinz Fischer, disse nesta quinta que a escolha de Waldheim como chefe de Estado esteve envolvida em polêmicas, mas aproveitou para elogiar os méritos do antecessor como ministro de Exteriores, presidente da República e secretário-geral da ONU. Uma das primeiras personalidades a expressar seus pêsames pela morte de Waldheim foi o secretário-geral das Nações Unidas, o sul-coreano Ban Ki-moon, que enviou suas condolências ao Governo e à população da Áustria. Em comunicado, Ban destacou que Waldheim enfrentou "um período crucial" na história da ONU. Por causa da polêmica que cercou o austríaco, pode ser mais relevante observar quem não comparecerá a seu funeral, cuja data ainda não foi anunciada. Matéria ampliada às 14h45 para acréscimo de informações

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