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Morre Lucía Hiriart, viúva do ditador do Chile Augusto Pinochet

Ela teve um papel importante na decisão de Pinochet de participar do golpe militar de 1973 e foi considerada a mulher forte do regime durante toda a ditadura

Thaís Ferraz / Enviada Especial, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2021 | 18h30
Atualizado 16 de dezembro de 2021 | 22h06

SANTIAGO - Morreu nesta quinta-feira, 16, em Santiago, María Lucía Hiriart Rodríguez, viúva do ditador do Chile Augusto Pinochet, aos 99 anos. Lucía era conhecida por ser influente nas decisões de seu marido durante o regime militar, de 1973 a 1990. Sua morte provocou uma mobilização imediata de opositores da ditadura na capital chilena, em sua grande maioria eleitores do esquerdista Gabriel Boric, a três dias do segundo turno entre ele e o conservador José Antonio Kast.

Bandeiras do candidato se misturaram à de movimentos identitários, como LGBT e dos indígenas mapuche. Muitos gritavam em festa “A velha morreu”. Para a chilena Catalina Albert, o fato de Lucía ter morrido impune dos crimes dos quais era acusada é “lamentável”. “Não acredito que isso terá impacto na eleição, mas espero que levante um debate sobre impunidade”, disse.

Nascida em dezembro de 1922, a ex-primeira-dama morreu por complicações de saúde devido à sua idade avançada, informaram parentes à imprensa local. Lucía se casou com Pinochet em 1943 e juntos tiveram cinco filhos. Ela despertou fortes reações entre os chilenos pela percepção de influência que ela exercia sobre Pinochet e pela fortuna acumulada por sua família. Seu espólio geria uma fundação polêmica, que foi submetida a várias investigações judiciais.

“Aos 99 anos e rodeada de familiares e entes queridos, minha querida avó falece", escreveu uma de suas netas nas redes sociais. "Ela deixa uma marca imensa em nossos corações. Dedicou sua vida a serviço dos chilenos e a história saberá valorizar a sua grande obra e a seu trabalho pelo nosso amado país. Descanse em paz”.

Seu pai era Osvaldo Hiriart, militante do Partido Radical (PR) e ex-ministro do Interior do ex-presidente Juan Antonio Ríos, um crítico da ditadura de Pinochet.

Segundo contou o próprio ditador em suas memórias, sua mulher foi peça fundamental para a sua decisão de realizar o golpe de estado contra Salvador Allende em 11 de setembro de 1973. 

Após o golpe, Lúcia era considerada a mulher forte do novo regime, com poderes de influenciar as decisões do marido. Entre os episódios mais marcantes estão a demissão do chanceler Hernán Cubillos após uma viagem frustrada de Pinochet às Filipinas e a prorrogação de Manuel Contreras, de quem era muito próxima, como diretor da Diretoria Nacional de Inteligência (DINA), a polícia secreta do Chile.

Após o fim da ditadura, a ex-primeira-dama fez poucas aparições públicas, em geral aquelas ligadas ao seu marido, que morreu em 2006.

Ela enfrentou diversos problemas com a justiça, em especial após se tornarem públicas as denúncias de negócios imobiliários da fundação Cema-Chile, criada durante a ditadura para dar formação a donas de casa. Ao fim do regime, a fundação perdeu seu caráter social e virou um lucrativo negócio imobiliário. Em 2006, ela e mais quatro filhos foram presos preventivamente devido a contas de Pinochet mantidas em bancos estrangeiros. 

A morte de Lucía acontece apenas três dias antes do segundo turno de uma das eleições mais polarizadas do país. Um dos candidatos, o ultradireitista José Antonio Kast, já estampou as campanhas do ex-ditador e defendeu a ditadura durante parte da campanha. Agora, ele tenta moderar o discurso, em busca dos votos do centro.

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