Carlos Barria/Reuters
Carlos Barria/Reuters

Morre chefe da repressão de Pinochet

Condenado a mais de 500 anos de prisão, Manuel Contreras tinha 86 anos; milhares de chilenos foram às ruas celebrar notícia

O Estado de S. Paulo

08 de agosto de 2015 | 08h45

SANTIAGO - (Atualizada às 15h50) Milhares de chilenos foram às ruas na madrugada deste sábado, 8, para celebrar a notícia da morte de Manuel Contreras, ex-chefe da temida polícia secreta da ditadura de Augusto Pinochet, no Chile. O general Contreras morreu na noite de sexta-feira, aos 86 anos, devido a um estado de saúde deteriorado, em meio a um conjunto de condenações em casos de violações dos direitos humanos cometidas durante o regime militar.

Contreras estava cumprindo uma sentença de mais de 500 anos de prisão, mas nos últimos dias permanecia internado em um hospital militar por um quadro de hipertensão, sequelas de trombose, diabetes e os efeitos de um câncer de colo. “A morte ocorreu esta noite (de sexta-feira), por volta das 22h30 no Hospital Militar de Santiago, onde ele estava internado”, disse um comunicado da polícia carcerária.

Após o anúncio da morte do general aposentado, grupos de pessoas se reuniram em frente ao hospital para gritar: “assassino, assassino, assassino”.

Contreras foi o diretor da Direção Nacional de Inteligência (Dina), que entre 1974 e 1978 decapitou os partidos que apoiaram o deposto presidente Salvador Allende. Cerca de 400 crimes foram formalmente atribuídos à Dina até o momento, incluindo sequestros e assassinatos, alguns dos quais em solo estrangeiro no contexto da Operação Condor.

Crimes. A Dina foi o núcleo de repressão mais relevante da ditadura chilena, que durou de 1973 a 1990 e matou mais de 40 mil pessoas, segundo estimativas que constam dos processos instaurados a partir de 1993 para apurar responsabilidades. 

O órgão de repressão chegou a ter 60 mil membros entre agentes, informantes e homens no exterior. A organização dispunha de prisões secretas, mantinha os presos por tempo indeterminado sem processo formal, só prestava contas a Pinochet e atuava dentro e fora do país, até mesmo para eliminar dissidentes exilados.

A Operação Condor foi o plano unificado de ditaduras sul-americanas, incluindo a brasileira, para caçar opositores dos regimes e eliminá-los. Contreras era tido como o “pai” da ideia, que culminou em centenas de mortes e desaparecimentos. 

Contreras também foi artífice da chamada Caravana da Morte, ação para exterminar dissidentes que matou cerca de 70 presos políticos em outubro de 1973. Os crimes do general foram, no entanto, além do território latino-americano. 

Em 1978, os Estados Unidos pediram ao Chile a extradição do general, considerado culpado pelo atentado que matou o ex-chanceler Orlando Letelier, em Washington. Letelier estava exilado no país. Uma bomba colocada no veículo a mando de Contreras o matou no dia 21 de setembro de 1976.

Em 2012, a Justiça da Espanha condenou Contreras à revelia pelo assassinato do diplomata espanhol Carmelo Soria Espinoza. O juiz Pablo Ruz alegou o “princípio de jurisdição internacional” para casos de crimes contra a humanidade para justificar seu pedido de prisão em outro país. Espinoza foi sequestrado pela Dina, torturado e morto também em 1976. 

Condenações. Contreras acumulava, no Chile, 58 condenações que definiram uma pena somada de 505 anos de prisão por violações de direitos humanos. A primeira sentença contra o general foi proferida em 1995. 

Em sua defesa, o general afirmava que todas as mortes causadas pela Dina haviam ocorrido “em combate” e negava ter dado ordens para que opositores fossem torturados. / AFP e REUTERS

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