EFE/ Luis Eduardo Noriega A./ARCHIVO
EFE/ Luis Eduardo Noriega A./ARCHIVO

Morre 'Popeye', o sicário mais famoso de Pablo Escobar

Com mais de 300 assassinatos pelo Cartel de Medellin, o assassino de aluguel dizia que 'mataria a própria mãe' se Escobar pedisse; ele morreu de câncer no esôfago

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2020 | 12h30
Atualizado 06 de fevereiro de 2020 | 18h23

BOGOTÁ - Jhon Jairo Velásquez, conhecido como Popeye, o mais famoso assassino de aluguel de Pablo Escobar, que sobreviveu a sete tentativas de assassinato e a diversos atentandos na prisão, morreu de câncer no esôfago nesta quinta-feira, 6. Ele era o chefe dos sicários do cartel de Medellin no auge do domínio de Pablo Escobar. 

Popeye tinha 57 anos. Ele estava preso desde maio de 2018 por extorsão, de acordo o jornal colombiano El Tiempo, que classificou Popeye como um dos piores criminosos da história do país.

Ele era conhecido por ser o “revólver mais temido” da Colômbia. Em uma entrevista em 2015, concedida ao jornal português Expresso, afirmou que “mataria a minha mãe se Escobar tivesse pedido”.

“Pablo Escobar era um assassino, um terrorista, um traficante de drogas, um sequestrador, um vigarista, mas ele era meu amigo”, disse Popeye à France Presse em 2015.

Uma vida de sangue e fábula

Loquaz, fabulador, criminoso confesso, Popeye dizia se sentir fascinado pelo “cheiro de sangue”. O sicário de Pablo Escobar criou uma personagem que vendeu livros, se fez youtuber e inspirou a Netflix, mas, sobretudo, semeou dor na época mais obscura do narcotráfico na Colômbia. 

Jhon Jairo Velásquez, seu nome de registro, morreu sob custódia de agentes carcerários no Instituto Nacional Oncológico em Bogotá. 

Sem pestanejar, a personagem que a Netflix criou com base em sua autobiografia Sobrevivendo a Pablo Escobar matou com dois tiros de revólver um homem algemado no chão antes de subir em um avião carregado de cocaína. 

Ficção e realidade se misturaram na vida de um dos últimos sicários que sobreviveu à morte do grande chefão colombiano das drogas, abatido pela polícia em dezembro de 1993

O mundo do crime o levou a ficar conhecido como Popeye - por um queixo sobressalente que logo foi operado - e o transformou em uma espécie de publicitário do mal, o homem que matava e narrava a sangue frio os crimes de seu patrão.

Em uma entrevista para a AFP em 2015, Velásquez se gabou de ter assassinado com as próprias mãos “ao menos 250 pessoas, talvez 300”.

Então, com um ramo de flores nas mãos de joelhos diante do túmulo de Escobar, se apresentou como um criminoso arrependido.

Mas testemunhos de policiais que o perseguiram, de parentes de Escobar e de suas vítimas contam outra história: a de um ‘gatillero’ - pistoleiro - que inflou sua história para se tornar uma celebridade. 

Ele fez “apologia ao delito, ao crime e à barbárie que ainda vivemos em nossas ruas”, disse à AFP Carlos Zuluaga, filho de um magistrado que foi assassinado por ordem de Escobar.

Nascido no povoado de Yarumal em 1962, filho de um pai comerciante, Popeye assegurava ter crescido em um “ambiente violento”, “fascinado com o cheiro de sangue”.

Segundo contou sem suas memórias, fez cursos na Marinha e na Polícia antes de converter-se ao bando de Escobar. 

Em 1992, com 30 anos, abandonou o Capo para submeter-se à Justiça. Passou 23 anos na prisão. Entre suas confissões, está a de ter administrado o armamento que matou o candidato liberal à presidência Luis Carlos Galán, em 1989. 

Também disse ter disparado contra Carlos Hoyos, assassinado em 1988, e  participado do sequestro do conservador André Pastrana, presidente da Colômbia entre 1998-2000. 

No cárcere, Popeye ofereceu testemunhos explosivos que o mostravam como chefe dos sicários de Escobar. 

Chegou a sustentar que Raúl Castro era o contato de Escobar em Cuba; e que seu chefe financiou a tomada do Palácio de Justiça pela extinta guerrilha M-19, em 1985. 

A escritora Maritza Wills, quem escreveu a vida do sicário, disse à revista Soho que a mentira foi a "base da sua personalidade". "Grande parte dos manuscritos que me enviava por terceiros trazia uma história um dia e uma versão completamente diferente no outro”.

O ex-vice presidente e general aposentado Óscar Naranjo, que perseguiu o cartel de Medellín, concorda que Popeye era um contador de histórias, para além de seu registro criminal.

Seus relatos são de “uma pessoa que quer engrandecer-se (...) e justificar sua atividade criminal”. “Estou certo de que o que ele sabe, boa parte é informação de segunda mão, entreouvidas, e em poucos casos ele foi de fato o protagonista”, disse à AFP.

Quando cumpriu sua pena, Velásquez se propôs uma vida austera, focada em mudar seus “anti-valores por valores”, mas a vaidade e sua recaída no crime o venceram antes do câncer.

Se fez youtuber - com mais de um milhão de inscritos em seu canal - militou ativamente contra o acordo de paz com as Farc e demonstrou fúria contra líderes de esquerda, que chegou a ameaçar publicamente.

Em 2017, foi descoberto na festa de um mafioso pedido em extradição pelos Estados Unidos e no ano seguinte regressou à prisão acusado de “extorsão e armação para delinquir”. A morte o encontrou longe dos refletores. / AFP, Com Agências Internacionais

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