AFP PHOTO / FRANCOIS GUILLOT
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Morre Simone Veil, defensora da descriminalização do aborto na França e sobrevivente de Auschwitz

Filho da ex-ministra anunciou que ela morreu aos 89 anos em sua casa; acadêmica sobreviveu ao seu período no campo de extermínio, para onde foi deportada aos 16 anos

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2017 | 11h28

PARIS - A ex-ministra francesa Simone Veil, promotora da lei que descriminalizou o aborto na França em 1974 e uma das figuras públicas mais queridas do país, morreu nesta sexta-feira, 30, aos 89 anos, anunciou seu filho Jean Veil.

"Minha mãe morreu esta manhã em casa. Teria completado 90 anos no dia 13 de julho", declarou o advogado.

Grande figura da vida política francesa, a acadêmica sobreviveu ao campo de extermínio de Auschwitz, para onde foi deportada aos 16 anos, e encarnava, para os franceses, a memória do Holocausto.

No campo de concentração perdeu seu pai, sua mãe e seu irmão. A tragédia e sua determinação em superá-la fizeram com que Simone, mais de 30 anos depois, reforçasse seu compromisso europeu e aceitasse a proposta do presidente Valéry Giscard d'Estaing de liderar a lista da União pela Democracia Francesa (UDF, formada por liberais e centristas) para as primeiras eleições com sufrágio universal do Parlamento Europeu.

"Aceitei a proposta, levando em consideração o que eu representava e percebendo na minha candidatura um símbolo da reunificação franco-alemã e a melhor maneira de virar definitivamente a página das guerras mundiais", relatou em sua autobiografia Une vie (Uma vida, em tradução livre).

Em 2000, após anos de engajamento político, Simone Veil foi designada pelo então primeiro-ministro, Lionel Jospin, para presidir a recém-criada Fundação para a Memória do Holocausto.

"Como todos os meus colegas, considero um dever explicar às jovens gerações, à opinião pública e às autoridades políticas como seis milhões de mulheres e homens, incluindo um milhão e meio de crianças, morreram apenas porque nasceram judeus", declarou na Assembleia Geral da ONU em 2007.

Conhecida por sua força, Simone estava com a saúde fragilizada há vários anos. Em meados de 2016, foi internada por problemas respiratórios.

Pelo Twitter, o presidente francês, Emmanuel Macron, enviou uma mensagem para a família. "Que seu exemplo possa inspirar nossos compatriotas, que encontrarão nele o melhor exemplo da França.” O ex-presidente François Hollande também homenageou aquela que "encarnou a dignidade, o valor e a integridade".

"A França perde uma mulher excepcional, uma grande testemunha e uma militante da memória do Holocausto", afirmou o presidente do Conselho Representativo das Instituições Judaicas da França (Crif), Francis Kalifat.

Simone Veil, membro do Conselho Constitucional de 1998 a 2007, entrou na política em 1974, momento em que ganhou notoriedade ao promover a lei sobre a interrupção voluntária da gravidez, que foi aprovada no mesmo ano e levou seu nome.

De 1993 a 1995, ela foi ministra de Estado, dos Assuntos Sociais, da Saúde e da Cidade no governo de direita de Edouard Balladur, sob a presidência de François Mitterrand.

A mensagem de Simone Veil "permanece viva no que diz respeito ao direito e ao papel das mulheres na Europa e, igualmente, ao antissemitismo", disse o presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani.

"Sua vida é um exemplo a ser seguido. Após o chanceler alemão Helmut Kohl (morto em 16 de junho), perdemos mais uma grande figura europeia", lamentou. "Ela viveu na pele as tragédias da Europa e soube, por meio de seu engajamento político, contribuir para a construção de uma paz durável na Europa", reagiu, por sua vez, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, em carta a Emmanuel Macron. / AFP

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